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A sabedoria dos ribeirinhos e a pesca sustentável do Pirarucu no novo fotolivro de Bruno Kelly

Confira o fotolivro Arapaima aqui!

Veja o Arapaima versão digital aqui!


Bruno Kelly é um fotojornalista paulista que mora há mais de 10 anos na Amazônia. Lá, ele teve a chance de se conectar com a cultura local e registrar a relação da floresta com o homem. Mesmo não sendo nativo, a Amazônia se tornou parte do fotógrafo, que conta as histórias desse território da forma mais especial que pode.

Foto: Cesar Nogueira

Arapaima é o novo fotolivro de Bruno. A obra reúne anos de registro da pesca sustentável do maior peixe de água doce do mundo, o Pirarucu. Bruno vem se dedicando a registrar o povo ribeirinho e seus conhecimentos sobre o peixe desde 2012, e desde então, criou uma relação de respeito, aprendizagem e troca com esse povo.




Como a sua história com território de Manaus começou?


Eu sou natural de São José dos Campos, interior de São Paulo, fiz jornalismo na Universidade do Vale da Paraíba e já atuava nessa região como repórter fotográfico. Quando comecei, fotografava para agências locais como jornal Vale Paraibano e mais tarde passei para agências nacionais como Folha Press. Após minha formação em 2008 tive muita vontade de sair do eixo Rio-São Paulo, queria conhecer mais o Brasil. Montei meu portfólio com as coberturas que tinha feito em São José dos Campos. Aqui temos muitas fábricas e um forte movimento sindical, e por isso eu possuía bastante material de coberturas de protestos e do movimento, além de que essas pautas são assuntos de relevância nacional e até internacional. Esse portfólio eu disparei para jornais de todo o Brasil, de qualquer lugar que eu tivesse um amigo que pudesse me dar um suporte caso fosse chamado.

Eu tinha esse amigo que também é do Vale da Paraíba e já morava em Manaus fazia algum tempo. Nos encontramos no final de 2008, ele me deu a ideia de mandar meu material para alguns dos veículos de Manaus. Logo antes do carnaval de 2009 recebi a ligação do editor do jornal A Crítica. Ele elogiou meu material, mas logo me questionou o motivo de eu querer ir para Manaus, já que costuma ser ao contrário, muitos fotógrafos sonham com um trabalho no Sudeste. Eu falei sobre minhas vontades, que tinha acabado de me formar e já trabalhava com freelas. O editor acreditou que eu me encaixava numa vaga que tinha acabado de abrir, de duração de 3 meses. Eu fiquei super feliz, apesar de um pouco receoso já que não conhecia nada do Norte mas depois de conversar com o editor do jornal que eu trabalhava como freela, e ele elogiar muito o trabalho do A Crítica, eu decidi ir. Fui muito bem acolhido, na época o jornal estava investindo muito na fotografia, com ótimos jornalistas e fotógrafos. Aprendi muito com todo mundo, cobri o Rio +20, fui para a Malásia, enfim... Eu consegui agarrar a oportunidade na hora certa, no local certo e com as pessoas certas. Esses 3 meses já se tornaram mais de 10 anos.



De que maneira se deu o seu encontro com o projeto da pesca sustentável e por qual motivo decidiu registrá-lo?


Eu sempre fui um fotógrafo proativo, que buscava as pautas que queria trabalhar. Mesmo com o jornal estando super aquecido, eu continuava querendo explorar os temas que esse território tinha para me oferecer. Assim que eu vi a primeira foto do Pirarucu, eu sabia que queria cobrir essa pauta. Em 2012 o jornal foi acompanhar o manejo desse peixe no Rio Juruá, e foi aí que tudo começou. Quando eu cheguei lá foi amor à primeira vista com o Pirarucu e a organização dos ribeirinhos, que mesmo sendo a primeira vez que faziam o manejo, a pesca e os conhecimentos sobre as espécies já faziam parte da cultura deles. Nessa região eles pescam a noite, então foi um grande desafio fazer as fotos. Mas a experiência foi muito interessante, tanto é que depois dos poucos dias fazendo a cobertura pelo jornal fiquei com vontade de voltar. Em 2013, houve uma oportunidade de fazer um caderno especial sobre o manejo do Pirarucu. Aqui em Manaus temos a associação Amazônia Sustentável que da apoio aos ribeirinhos em vários projetos, e o manejo do Pirarucu é um deles. Conversei com o diretor da fundação sobre a minha vontade de fazer uma cobertura mais completa sobre o assunto, ficando mais tempo no local para conseguir contar essa história de forma mais profunda e autêntica. Fechamos então uma parceria, e a partir daí que entrou a Mônica Prestes, jornalista autora do texto que acompanha o fotolivro. Conversei com a chefe de redação do jornal falando sobre a pauta e que precisava de uma jornalista para levar comigo. Escolhemos a Mônica por já termos uma parceria e por sabermos que ela gosta desses projetos que se viaja, mesmo com as condições nem sempre sendo as mais confortáveis. Ficamos duas ou três semanas acompanhando o manejo do Pirarucu na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Foi cansativo e espetacular. Ficamos morando numa lancha e íamos parando nas comunidades, ficando por volta de 5 dias em cada uma. A reserva é enorme, contempla várias cidades, e demos praticamente uma volta completa no lugar.

O caderno saiu, com uma matéria bem completa contanto essa história de sucesso dos pescadores e mostrando que é possível preservar a floresta e ainda tirar uma renda com trabalhos como a pesca para as pessoas que moram ali. Deu super certo e acabamos ganhando o prêmio Sebrae de jornalismo, e desde então, construí uma amizade com pessoas como o Edson, uma das liderança dos pescadores, com a própria fundação e com o Instituto Mamirauá, que tem vários projetos na reserva. E assim, eu comecei a voltar sempre na época do manejo, mesmo se não tivesse para quem vender a pauta. Já perdi as contas de quantas vezes eu já fui, se tornou um projeto de longo prazo.



Como era sua rotina fotografando a população ribeirinha e os pescadores? Como foi a aceitação deles com você?


Conforme eu fui voltando todos os anos a Reserva de Mamirauá, fui construindo uma relação muito legal com os ribeirinhos. Antes quando eu ia ficava hospedado na base de pesquisa do Instituto, mas agora fico hospedado na casa de um deles. Eu aprendo muito com essas pessoas, entendi que não precisa de muito para viver. Esses povos tradicionais vivem da terra, respeitam o meio ambiente, coexistem com a mata: “a floresta é a mãe”. Sinto que nos grandes centros acabamos desconectados da necessidade de entender que não somos donos desse planeta, mas vivemos nele e devemos preservar a harmonia com outros seres, se não o resultado é esse: pandemias, aquecimento global, temperaturas extremas... Minha relação com os ribeirinhos é de aprendizado, eles têm muito o que ensinar para gente. O próprio manejo surgiu do alinhamento do conhecimento tradicional com o conhecimento científico dos pesquisadores pois quando foi proposto que a pesca do Pirarucu fosse proibida devido a diminuição da espécie, e fosse substituída pelo manejo, os ribeirinhos que forneceram a técnica de contagem de quantos peixes havia em um determinado lago. Eles sabem que de tanto em tanto tempo o peixe sobe para respirar, e pelo número de subidas, eles fazem um cálculo para saber quantos peixes têm ali. Quando começou, os próprios pesquisadores não acreditavam nisso. Mas com o tempo, a técnica dos ribeirinhos se mostrou confiável e foi criada a cota, que é o número de peixes que podem ser pegos em um lago e o tamanho mínimo de 1,5 metros para que não sejam pescados os filhotes.



A vontade de transformar seu projeto em um fotolivro nasceu junto ao início do projeto ou foi algo que você decidiu após ver o trabalho pronto?


Eu sempre senti a vontade de continuar fotografando, independe do fim de uma matéria ou de um caderno especial. A verdade é que ainda estamos um pouco longe de decretar esse trabalho como pronto. Por isso me identifiquei com a Artisan, que o símbolo é um ponto e vírgula, pois é nesse estágio que o projeto se encontra: o livro é um marco mas não o fim. Em 2018 comecei a olhar o material que eu já tinha e a ideia do livro surgiu para que eu pudesse dar um retorno para os ribeirinhos. Todas as fotos que eu faço são posteriormente disponibilizadas para eles, para eles usarem nos relatórios por exemplo, e para as instituições que me apoiam também, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e o Instituto Mamirauá. Eu sempre vou com a logística dos pesquisadores deles porque aqui na Amazônia nada se faz sozinho, as condições do território fazem tudo ser muito caro. Então eu sabia que esse projeto poderia dar em algo maior, só o tema do Pirarucu já é internacional, a pesca dele é um exemplo de sucesso de sustentabilidade na Amazônia. Com essa relação de troca que criamos, tanto com os pescadores quanto com as instituições, comecei a procurar uma forma de retorno que eu poderia entregar. Foi aí que o Marcio Pimenta da Artisan me ligou, me contando do nascimento da editora e que estava montando uma primeira série de livros. E tudo se encaixou, depois de sentar com o Pimenta, construir a narrativa do livro, escolher a quantidade de imagens, a ordem das coisas... Um pequeno fotolivro, que ficou lindo e ainda me trouxe mais um grande aprendizado, surgiu. Foram 30 cópias, e pelo menos metade deles dei para os ribeirinhos e para as instituições.

Em função da pandemia, eu não pude concretizar minha ida desse ano. Mas veio a Lei Aldir Blanc, que deu uma força para todo mundo que teve sonhos e projetos inviabilizados por causa dessa situação. O Pimenta me deu a ideia de aplicar para o edital do Prêmio Feliciano Lana e conseguimos, fomos contemplados. Definitivamente sem esse edital nós não estaríamos rodando mais 100 cópias do Arapaima, algo que já era uma vontade minha porque a quantidade que tínhamos antes não deu para todos os ribeirinhos envolvidos. Assim, transformamos o Arapaima nessa versão mais completa, com um acabamento mais rebuscado. A equipe Artisan foi incrível, designer Artisan da época, Thalita Machado e o editor Henry Milleo, que enxergou toda uma nova narrativa do primeiro livro para esse. Optamos por uma visão mais macro, mostrando o ambiente, as emoções geradas pela pesca, os jovens da população ribeirinho... Toda essa trama entre a floresta, do rio, do peixe e do homem. Foi assim que o fotolivro nasceu.



Onde você espera que Arapaima chegue e qual mensagem você deseja que ele transmita?


Arapaima será distribuído gratuitamente para universidades, bibliotecas públicas, casas de arte, escolas e claro, para as comunidades que registrei ao longo desse tempo. O intuito é fazer as pessoas conhecerem mais do projeto do manejo do Pirarucu, conhecer os ribeirinhos e valorizar esse trabalho. Com a primeira versão, a recepção dos jovens nas comunidades ribeirinhas foi incrível, com o livro eles sentem um empoderamento e percebem que aquele trabalho feito pelos anciões de seu povo é realmente importante. E o envolvimento dos mais novos garante a continuidade do projeto. Enfim, eu almejo esse retorno para eles. Por exemplo, a associação dos pescadores faz muitas reuniões com entidades para financiar os projetos, para compra de barcos, equipamentos e melhorar as condições de trabalho. E nessas ocasiões eles podem dar o Arapaima para um financiador, ter esse material para difundir a história deles. O livro foi feito para eles.

E algo interessante que o edital trouxe é que temos um site com a versão digital da obra, com as fotos e os textos tanto da Mônica quanto falas dos pescadores, para que quem veja tenha acesso ao ponto de vista dos próprios ribeirinhos. Será possível inclusive baixar o PDF dele. Então eu sinto que o livro se torna cada vez mais acessível dessa forma, para o aprendizado de quem quer que seja. Desde uma professora que queira apresentar para seus alunos até um apaixonado pelo tema terão a possibilidade de conferir o Arapaima mesmo sem a versão física. Nós recebemos tanto conhecimento maravilhoso que a minha vontade é difundi-lo da forma que eu puder. (Venha conhecer o Arapaima digital aqui).



Como foi o seu encontro com a Mônica e de que forma essa parceria resultou no texto que acompanha o fotolivro?


Eu e a Mônica somos muito conectados, tanto é que já comentei dela durante a entrevista. Durante 10 anos aqui meus amigos viraram minha família. E ela já é minha parceira desde a época do jornal A Crítica, fizemos outras matérias e viagens juntos além da cobertura da pesca sustentável. E assim nos aproximamos, ainda mais trabalhando na Amazônica que eu acredito que junta as pessoas. Quando viajamos por aqui não tem isso de um quarto para o fotógrafo, um para o jornalista... Dormimos todos nas mesmas redes, convivemos para valer mesmo! Trabalhar aqui me mudou muito para melhor, me unificou com as pessoas. E a Mônica é uma delas. Por isso que quando surgiu a oportunidade de fazer a reportagem do manejo eu a sugeri, por essa conexão: ela me ajuda, eu a ajudo e vamos construindo juntos.

A Mônica se apaixonou pela temática tanto quanto eu, inclusive fez o mestrado dela sobre a comunicação dos pescadores e como isso ajudou o manejo. O prefácio, que é super emocionante, é dela. E temos alguns textos que acompanham as imagens para ir situando o leitor também.

Espero que todo mundo goste do livro, que as pessoas sintam um pouquinho do que nós sentimos nessa experiência e que a obra traga muitas coisas boas para os pescadores. Nós não temos controle de onde nossas imagens vão chegar, mas torço que ele ajude os ribeirinhos tudo que puder ajudar. Sou muito grato a toda a equipe Artisan e vou sem dúvida continuar fotografando o manejo. Viver da Amazônica, da terra e do planeta é um dom do Brasil que precisa urgentemente ser valorizado, ao olhar para o conhecimento dos povos tradicionais com respeito, temos a chance de aprender e aí sim, nos tornamos um país mais livre.

Para conferir a obra Arapaima de Bruno Kelly é só clicar aqui.

Veja o Arapaima versão digital aqui!