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Art dealer Gabriela Toledo conta sobre os bastidores da profissão e da dicas para fotógrafos

Atualizado: Jun 2

Gabriela Toledo é uma curadora e art dealer de fotografia, carioca, mestra em Comunicação e Cultura pela Universidade de Brasília, com pesquisa sobre a relação entre a fotografia e o campo das artes plásticas. Atuou como gerente e produtora executiva da Galeria da Gávea, no Rio de Janeiro, especializada em fotografia brasileira contemporânea. Lecionou em diversas instituições, entre elas a Universidade de Brasília na Faculdade de Comunicação e no Instituto de Artes e a Universidade Estácio de Sá no curso Politécnico de Fotografia.

Atualmente, se dedica também a função de art dealer, que é ofício de intermediar a venda de uma obra de arte entre um artista e um colecionador: um comerciante de arte. Gabriela é uma art dealer de fotografia, especializada na linguagem

fotográfica e na história da fotografia.



Como você se tornou curadora e artdealer de fotografia? Que tipo de formação e ou estudo acredita ser necessário para se inserir nessas áreas?


Iniciei a minha trajetória com a fotografia aos 18 anos, fiz um curso na Escola de Artes Visuais aqui no Rio de Janeiro, e logo em seguida comecei a fotografar obras de artistas plásticos como o Ernesto Neto e Franklin Cassaro. Portanto, desde o início estive muito conectada com o campo da arte contemporânea. Mais tarde, dei continuidade à minha vida profissional em outras áreas da fotografia.

Paralelamente sempre tive um interesse muito grande em estudar história e teoria da fotografia, isto é, pensar a fotografia como meio de expressão e suas especificidades, além das diferentes formas pelas quais a fotografia é apropriada pelo artistas contemporâneos. Existem os fotógrafos que sempre trabalharam com o meio fotográfico e possuem um caminho profissional na área da fotografia, mas em que em algum momento do seu percurso começaram a produzir uma fotografia autoral voltada para o mercado de arte. E existem os artistas visuais que se apropriam da fotografia como meio de expressão para a materialização das suas obras. Hoje existe uma liberdade muito grande e tudo se mistura, o que acho bastante rico, afinal a fotografia e as chamadas belas artes sempre estiveram muito próximas.

No final da década de 1980, não existia internet e nem as facilidades em que se tem hoje em dia: acesso a livros, catálogos de exposições, enfim, um mundo de informações disponível sobre a fotografia. Então resolvi fazer um mestrado na Universidade de Brasília, em Comunicação e Cultura para abrir um espaço de reflexão sobre o fotográfico. Em seguida, comecei a dar aulas na Instituto de Comunicação e mais tarde no Instituto de Artes na Universidade de Brasília. Tudo foi se somando, o fato de eu ter uma experiência prática como fotógrafa profissional, como professora e pesquisadora foi construindo a minha formação. Estive em Paris durante um período, onde acompanhei alguns seminários sobre história da arte e da fotografia na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, vi muitas exposições, frequentei muitas palestras em museus, pesquisei muito na Biblioteca Nacional da França e da Maison Européene de la photographie, onde tive acesso a uma bibliografia muita extensa sobre fotografia e arte contemporânea.

Hoje em dia já existe no Brasil uma produção acadêmica muito consistente sobre a fotografia nas universidades brasileiras, publicações de livros que estão formando não somente curadores, mas também os próprios artistas visuais que estão fazendo mestrado e doutorado para pensar as suas produções artísticas. Criou-se um espaço muito rico de produção e de troca. Então, o espaço para a fotografia tem crescido muito nas últimas décadas dentro e fora do meio acadêmico, mesmo assim ainda acho que precisa crescer muito mais, o público em geral ainda desconhece muito o fotográfico.

Uma outra experiência profissional foi o trabalho que desenvolvi como diretora da Galeria da Gávea, que é especializada em fotografia contemporânea, no Rio de Janeiro. Lá dentro tive múltiplas funções e tive a oportunidade de aprofundar o meu conhecimento sobre o mercado de arte. Como tínhamos um formato pequeno como galeria, fazia a produção executiva das exposições, acompanhava as montagens e em algumas delas fiz assistência de curadoria, fazia o relacionamento com clientes, colecionadores, artistas visuais e fotógrafos. Participamos das principais feiras de arte do Brasil, como a SP-Arte, SP Arte-foto e a ArtRio. Esse conjunto de atividades dentro da galeria me deu uma experiência muito real e prática em relação à fotografia no mercado de arte.

Resumindo, acho que não existe uma fórmula única para ser art dealer de fotografia, essa foi a minha trajetória. Mas claro que acho importante estar antenada com a produção contemporânea, e conhecer a fotografia como meio não só estético, mas técnico também, ter conhecimento sobre história e teoria da fotografia, e da arte contemporânea.

Foto Rodrigo Pinheiro - Série Tornáras, 2018.

Conte um pouquinho como é sua rotina como art dealer de fotografia.


Há dois anos venho trabalhando como art dealer de fotografia independente, portanto não tenho uma galeria e nem um espaço expositivo próprio. Acho que hoje podemos ter muitos formatos diferenciados para trabalhar. Para você manter uma galeria, o custo fixo é muito alto.

A fotografia tem uma particularidade que o custo de produção de cada obra é quase todo em dólar, pois todas as ferramentas de trabalho do fotógrafo são importadas. O papel para cópia fotográfica ou para impressão em jato de tinta, as impressoras de jatos de tinta, a tinta da impressora, a montagem das molduras precisa ter uma padrão de qualidade para a conservação da imagem fotográfica, como vidro antirreflexo. Muitos artistas com os quais trabalho ainda utilizam filme fotográfico e câmeras de médio e grande formato analógicas, não somente a câmera digital. Os filmes também são importados.

Ainda existe um desconhecimento por parte de alguns clientes que questionam o valor de venda da fotografia, pois acabam comparando com a pintura, que é uma obra única em relação à fotografia que é uma imagem reprodutível mas tem edição limitada.

Além da fotografia pronta ter um custo de produção muito alto que encarecesse o preço final, e existe um valor agregado subjetivo que é o olhar do fotógrafo, a sua formação intelectual, a sua visão de mundo e a sua sensibilidade que ele coloca em seu trabalho. É algo único. As viagens que eles fazem para fotografar ou o tempo que eles se dedicam no desenvolvimento de seus projetos mesmo que não viaje. Como precificar isso? Não é só apertar o botão do disparador, mas sim é uma visão que está sendo apresentada ao público que é única.

Existe então também um trabalho de dar conhecimento a todos os clientes sobre as particularidades da fotografia em relação aos outros meios de produção artísticas.



Como o(a) artista é trabalhado pelo art dealer? Conte sobre os bastidores dessa troca.


Já tenho alguns clientes e colecionadores com os quais trabalho e, portanto, sempre estou os atualizando com os novos trabalhos dos fotógrafo. Estou sempre buscando novas oportunidades de venda, novos clientes. A questão é como chegar nas pessoas que querem adquirir uma fotografia de arte e não conhecem o meu trabalho? O que levam as pessoas a comprar são as motivações mais diversas, por isso existe um mercado a ser explorado. As vezes um colecionador adquiri uma fotografia que conversa com a sua coleção especificamente, por exemplo.

E com a pandemia, continuo trabalhando diretamente com os clientes assim como pelo Instagram, que é uma plataforma de divulgação do meu trabalho, dos fotógrafos e das obras.

Procuro também fazer um trabalho de divulgação dos artistas com os diretores artísticos do museus e com curadores independentes.

Gosto quando há espaço de pensar o trabalho do artista junto com ele. Existe um lado bem prático de definir as edições, as dimensões e os valores, mas as vezes o artista chega com tudo já muito definido e fechado. É a forma de trabalhar de cada um que tem que ser respeitada. Porém podem ter vezes que você consegue apontar um caminho para o artista que ele não viu. Resumindo: é bastante trabalho diário!

Foto Milton Montenegro - Série Depois Daquele Beijo
Foto Alexandre Sant´Anna Dendezeiro

O que te fez abrir as portas para a área de art dealer? Quais experiências a função de ser ponte entre clientes e artistas te trouxeram que você acredita serem importantes para a profissional que você é hoje?


A experiência na Galeria da Gávea abriu as portas para a área de art dealer de fotografia para mim, pois lá eu também trabalhei na área comercial. Acho muito rico e estimulante trabalhar com os artistas e tomar contato com o processo criativo deles, as questões que os levam a produzir terminado tipo de trabalho e a forma como eles usam o meio fotógrafo para materializar as suas obras. E depois fazer essa ponte entre os clientes que irão adquirir essas obras, que vão ter as suas motivações muito próprias e vão se relacionar com essa a obra em seus espaços residenciais de forma constante e criativa também. É interessante pensar que as obras vão abrir um espaço visual e mental de percepções e reflexões.

Você está vendendo um produto que não tem uma função prática, objetiva, unicamente de decorar uma casa. Mas circula na área da subjetividade, portanto acho essencial ter uma delicadeza no processo de venda da obra: ouvir o cliente, entender as motivações dele e fornecer as informações objetivas também, sobre a trajetória do artista, sobre os trabalhos, as partes mais técnicas sobre conservação da obra etc. Isto é, orientar o cliente. O mercado exclusivo para fotografia ainda é pequeno.

Como a fotografia é um meio de expressão múltiplo, acredito ser importante representar trabalhos de fotógrafos e artistas visuais que exaltem essa diversidade do meio. Desde fotografias que vem de uma tradição moderna até à fotografia contemporânea. A riqueza de produções é muito grande!



Que conselho você daria para um(a) fotógrafo(a) que almeja fazer uma exposição?


Existem as exposições nas galerias comerciais e em instituições públicas e privadas. Nas galerias comerciais, o fotógrafo normalmente faz parte do elenco então faz exposição individual com uma certa periodicidade. O fotógrafo que não faz parte do elenco de uma galeria tem que buscar a oportunidade de ser convidado por um curador para fazer de uma exposição coletiva, por exemplo. As instituições públicas ou privadas abrem editais ou trabalham com curadores que organizam exposições coletivas ou individuais, então é importante que o artista participe desses editais e se mantenha frequente nesse circuito. Assim, o seu trabalho se torna conhecido por curadores, diretores artísticos de museus e críticos. E também há os festivais de fotografia.

Foto Gui Christ Série Fissura - Título: Televisão e Livros da Rua Mauá, 2017-2020
Foto Bel Pedrosa Série Partituras no Asfalto - Título: Bus, 2012

Para você, o Instagram é uma forma de curadoria? Que conselho sobre o uso dessa ferramenta você daria para um(a) fotógrafo(a) que espera vender suas artes?


Concordo que o Instagram permite ter acesso ao trabalho de muitos fotógrafos, é uma das ferramentas para o fotógrafo divulgar a sua produção. Na pandemia se tornou mais importante ainda. Mas não é a única, é preciso estar no circuito: enviar os trabalhos para os prêmios nacionais e internacionais, participar dos editais de exposições.

Penso no meu Instagram visualmente como uma forma de exposição e de divulgação de conteúdo sobre os fotógrafos e sobre a fotografia em si, para o público em geral tomar conhecimento sobre a riqueza desse universo. E é uma boa ferramenta de divulgação e venda: você alcança milhares de pessoas que nunca teria contato se não fosse dessa forma. Agiliza muito, mas não é o suficiente. Acredito que é muito importante manter esse trabalho mais direto com os fotógrafos e com o público, sem passar unicamente pelas mídias sociais

Foto Ana Carolina Fernandes - Série Prainha, 2013.

Todas as fotos aqui presentes são de artistas que Gabriela Toledo representa.