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Através da fotografia e da poesia, Zeca Coelho rodou o mundo, viajando para dentro e para fora de si

Confira esse lançamento Artisan aqui.

Zeca Coelho é um fotógrafo mineiro, nascido em Lavras, crescido em Belo Horizonte e atualmente tem 46 anos. Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), seguiu a carreira de diretor de arte. Numa família de quatro irmãos, Zeca é o terceiro e desde criança é extremamente imaginativo, sempre percebendo o mundo através de um olhar lúdico. Seu primeiro contato com imagens do mundo afora foi através da antiga revista Terra, que sua irmã assinava. Foi ai que a sede de conhecer e registrar o mundo surgiu. Cada folha era uma imagem que fazia Zeca suspirar imaginando a visão daquele cenário, o cheiro, as texturas, “uma ânsia por um sensorialismo novo”. Rodeado das montanhas de Minas Gerais, Zeca sonhava com o que havia além delas.


A carreira publicitária perdeu o propósito para Zeca quando sentiu que o mercado pasteurizou sua criação, o forçou num ritmo de trabalho alucinado e acabou passando por uma estafa. Foi aí que entendeu que algo não estava certo em sua vida e decidiu se curar fazendo o que sempre foi seu bálsamo: viajar. Era quando se permitia ter um olhar para além dessa lógica de mercado, observando o cotidiano dos lugares que conhecia e tirando seu sensorialismo da zona de conforto. Nesse período de ruptura, achou espaço emocional para se dedicar a fotografia e a poesia. Vendo todo o material que produziu, entendeu que tudo aquilo poderia virar um livro.


Como nasceu o projeto “De-Verso”? Conte um pouquinho sobre as escolhas dos lugares que visitou para a construção do projeto e como a poesia se inseriu nele.


Falar sobre a linha do tempo deste projeto é um desafio, pois ela não foi nada linear. De-Verso a junção de dois caminhos, a fotografia e a poesia e ambos surgiram antes da ideia do livro. Através da fotografia, busco mirar o olhar no trivial, no que se vê todo dia em um determinado lugar. Talvez para alguns, um elemento, uma simbologia pode parecer curioso, diferente, mas para outras pessoas fazem parte do dia a dia. A forma que esses componentes triviais se apresentam em uma determinada situação me chamam a atenção, seja uma luz, composição, cor, circunstância. Assim, não houve escolha de lugares, mas de momentos. No caso de De-Verso, os lugares são consequência da minha paixão por viajar, seja qual for a distância.

Já a poesia também não foi inserida no projeto. Digo isto porque realmente não teve um e depois o outro. Lembro bem do momento que decidi fazer o projeto. Estava revendo umas fotos dos Monges em Mianmar, quando vi uma foto que tem uma criança rodeada de cachorros. Ela parecia que iria dividir um pouco da comida com eles, que estavam olhando atentos. Essa imagem me remeteu a irmãos, todos ali compartilhando um momento de refeição. No mesmo momento, lembrei de um texto que escrevi sobre irmãos. Daí veio o estalo. Comecei a perceber que várias fotos minhas tinham pontos em comum com os textos. Assim, De-Verso foi uma obra projetada com materiais em mãos, com exceção de poucos textos que produzi revisitando alguns momentos vividos na hora em que fotografei.



Como foi o processo de fotografar em lugares tão distintos da sua terra natal?


Para responder essa pergunta, vou falar sobre a parte física e a parte cultural desses lugares. Sobre a parte física, realmente tem algumas lugares com características bem diferentes com as que seu corpo tá acostumado: falta de oxigênio, calor excessivo, frio, etc. Além disto, eu não tive muito tempo para aclimatar com a região, pois essas viagens eram feitas em períodos que conseguia folga no meu trabalho. Eu só lia sobre o lugar e metia a cara. Quando você vai fotografar desta forma, você tem perceber muito o que lhe é oferecido: mal tempo, frio, etc. Lógico que tem situações que se tornam impraticáveis, mas sempre fui muito aberto pra observar a situação. Muitas vezes as pessoas falam “de tal jeito esse lugar é mais bonito". Acredito que qualquer variação do ambiente pode de oferecer um momento único. Temos que estar preparados para recebê-los.

No que se refere ao aspecto cultural, respeito é a palavra chave. Leio sobre o lugar antes de fotografar e tento entender os costumes da população local. Mas só ler não é suficiente. É bom estar atento sobre isso no momento da foto, pois sua percepção de uma atitude sua pode estar bem equivocada. Você pode achar que está fotografando de uma maneira correta e não perceber que essa atitude é desrespeitosa. E quando tem uma pessoas na foto, essa atenção tem de ser redobrada.



As poesias foram escritas antes das imagens e você foi as encaixando ou elas foram escritas a partir das fotografias?


Elas foram escritas de forma paralela. Algumas poucas foram escritas relembrando o momento das fotos. Sei que pode parecer muito espontâneo esse processo, ou pouco planejado, mas foi assim que aconteceu. Comecei a enxergar pontos em comum entre as narrativas visuais das fotos e as mensagens dos textos. Eu não tinha nenhuma intenção de cruzar essas linguagens de início. A ideia de juntar os dois só veio depois de uma grande quantidade de material produzido. Talvez isso tenha facilitado a enxergar esses pontos de interceção.

Acredito muito na intuição e talvez ela tenha levado esses dois caminhos a se encontrar sem que a razão estivesse percebendo. Ambos os caminhos são processos de auto-conhecimento e como eu disse no livro “são versos de um mesmo sujeito”.


O que você encontrou de coincidente em locais tão diferentes que fez possível “De-Verso” ter uma unidade?


Acho que é a tentativa de mostrar algo único em uma situação trivial. Sei que isso pode soar clichê, mas eu acho mágico quando aquele momento capturado na fotografia que intensifica algum aspecto de uma situação que, por sua vez, poderia ser considerada banal. Além disso, a diversidade de cenários pode ser considerado a unidade do livro, por mais paradoxal que isso possa parecer. Acho que o cruzamento desses dois fatores dá uma consistência legal para o projeto.


E para além dos cruzamentos entre as localidades, o que você encontrou durante o seu projeto que coincidiu com a sua bagagem pessoal?


Que pergunta boa e difícil. Com certeza colocamos nossa bagagem pessoal em tudo que fazemos. No meu caso, esse projeto é a concretização de uma expressão autoral que é muito recente para mim. Trabalhei muitos anos com Direção de Arte para campanhas publicitárias. A fotografia fazia parte, mas, apesar do processo criativo, eu não me sentia autor do trabalho. Muitos achismos, estratégias de persuasão, busca pela aprovação de um terceiro, e por mais que algumas ideias tenham ido pra frente, pra mim sempre se apresentavam como uma colcha de retalhos sem muito sentido.

Em contraponto a isto, os momentos em que saia para outros lugares para fotografar, próximos ou distantes da minha casa, onde me permitia uma contemplação, faziam cada vez mais sentido para mim. Quando digo contemplação não é a visão romantizada de ficar parado, olhando, sem nenhum esforço. Chamo de contemplação o estado presencial, você ficar 100% presente, focado, atento ao que te rodeia. E isso exige esforço, exige ação. E para isto é necessário tempo.

Depois de uma estafa profissional eu consegui esse tempo. Não foi agradável, pelo contrário, mas desacelerei e a contemplação, citada anteriormente, foi feita com mais frequência, chegando até a criação do projeto De-Verso.

A poesia também veio neste momento. Eu definitivamente lia mais do que escrevia. Não era muito de escrever. Mas acho que a carga emocional que envolve um período de ruptura e estafa pelo qual passei, traz consigo um “maremoto”. E foram as palavras o instrumento que arranjei para dar vazão a isso tudo. Elas me levaram até o De-Verso, mas tenho certeza que vão continuar extravasando muita coisa.



A vontade de materializar o seu projeto nasceu junto com ele ou foi algo que veio durante o processo? Que qualidades de “De-Verso” você acredita que são potencializadas a partir do momento que ele se tornou fotolivro?


Definitivamente nasceu junto com o projeto. Eu não vi o projeto De-Verso de outra forma a não ser um livro. O próprio formato digital é muito mais fácil para colocar um projeto no ar, mas você virar uma folha sentindo seu peso, sua textura, e ela revelar o próximo conteúdo é uma situação, pelo menos para mim, muito semelhante a que você tem quando olha uma curva, ou uma montanha e pensa "o que verei a seguir?”. O ato de rolagem de telas me parece algo mais ansioso nesta busca por novidade. Além de estar sujeito a mais distrações. Já o fotolivro proporciona um ambiente com maior possibilidade de se encontrar a contemplação citada anteriormente.



Qual a principal mensagem que você gostaria que “De-Verso” passasse para o público agora que o livro foi lançado e está disponível para o mundo?


Acho que o próprio nome já dá uma dica: diversidade. E que mesmo havendo essa diversidade, existem pontos em comum no cotidiano em diversos lugares. Talvez esta seja a graça, de que somos mais diferentes e parecidos do que imaginamos. Pode parecer contraditório que duas coisas opostas atuam ao mesmo tempo: as diferenças e as semelhanças. Mas acho que é o balanço desses dois pesos que ajudam a gente a manter nossas raízes e a respeitar o outro.



Que conselho você daria para um fotógrafo que deseja se aventurar em um projeto fotográfico que abrange diversas culturas diferentes da sua?


Não tenha uma visão colonialista na qual você acha o que está retratando é “mais atrasado”, ou “de menor conhecimento”, ou algum outro pensamento que exponha essa cultura de maneira pejorativa. Entenda como essas culturas se desenrolam, seus signos e significados. Aproveito pra dizer que gosto muito do acesso mais diversificado da fotografia, com o surgimento de novas tecnologias, mais acessíveis. Antigamente, sabemos que o acesso ao equipamento fotográfico era restrito. Agora, com os próprios smartphones, outras culturas estão mostrando o seu olhar sobre sua realidade, antes fotografada somente por uma parcela privilegiada. Precisamos ver outras histórias.

As fotografias de De-Verso foram feitas na Argentina, Brasil, Camboja, Colômbia, Itália, Laos, Mianmar, Tailândia, Uruguai, Vietnã. Para conferir o fotolivro é só clicar aqui.