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Entre a fotografia e a geografia: Flora Pidner descobre as paisagens de Sebastião Salgado


Flora, doutora em Geografia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), lançou em 2019 sua obra Geo Foto Grafia: narrativas espaciais nas imagens de Sebastião Salgado, fruto de sua tese de doutorado. A escritora mergulha no universo de imagens do fotógrafo e as suas – nossas - relações com a geografia. Assim, descobre detalhes do olhar de Salgado, de suas crenças de mundo e de uma profunda relação entre a arte e a geografia.


A geógrafa de 37 anos é mineira, professora do Instituto Federal de Alagoas, e se inspira fortemente em Paulo Freire e Milton Santos. Apaixonada pelo Nordeste, escolheu Alagoas como casa e lá participa de coletivos de mulheres que lutam contra as opressões, como o Maria Mariá e a GrupA (um coletivo de atleticanas). Além de abraçar os ideais feministas, também se define como antifascista e antirracista. Se considera uma migrante, desde sua infância já morou em 11 cidades, em 4 estados de 3 regiões do país: “sou um pouco de cada um desses lugares e talvez por isso eu também tenha me enveredado pela Geografia”.


A ideia de convergir a área da geografia e as fotografias de Sebastião Salgado surgiu quando Flora tinha 15 anos e foi na exposição Êxodos com sua madrinha. Ali estava o embrião de sua pesquisa. A escritora saiu impressionada com as imagens, ficando com elas fixadas em seus pensamentos e instigando reflexões, mesmo que ainda prematuras. Após sua jornada na Geografia, ela ganhou base teórica para alimentar suas dúvidas e passou a utilizar as fotografias de Salgado também na sala de aula. “Eu não queria que as fotografias fossem vistas apenas como ilustrações, porque elas são muito mais – são representações, têm potência”. Assim, o diálogo entre sua área de formação e as fotografias foi crescendo até culminar na tese que resultou em um livro.

Em seu intenso mergulho nas fotografias de Sebastião Salgado, Flora explorou o olhar e a trajetória do fotógrafo. “Aprendi sobre a vida pessoal dele e elementos da sua identidade e em como se entrelaçam em sua obra, ou seja, como as teias das narrativas geofotográficas de Salgado são, de certa forma, povoadas pela trajetória de vida do fotógrafo, que cria uma rede de experiências”. A geógrafa acompanhou expedições geofotográficas e construiu mapas (com a ajuda de seus amigos Thalita Miranda e Gutemberg Barbosa) para localizar a mobilidade espacial do fotógrafo durante os projetos “Trabalhadores”, “Êxodos” e “Gênesis”. Identificou onde ele esteve, em qual período, realizando qual projeto. Flora conta que também aprendeu sobre pessoas importantes para a construção do trabalho de Salgado, que ele possui uma forte relação de troca, como os próprios fotografados. Além de também seus filhos e sua esposa Lélia Salgado, a qual credita uma grande importância nas narrativas e escolhas estéticas do artista. “Mulheres como ela ficam nos bastidores, quando tinham que estar, também, sob os holofotes. Sem ela, a obra dele não teria essa grandiosidade”, afirma. Por fim, lembra de momentos da trajetória de Salgado que a marcaram, como quando ele volta ao seu lugar de origem, na fazenda onde cresceu em Aimorés-MG, e “revela que nosso ponto de partida é sempre nosso lugar”. Também quando o fotógrafo passa por momentos de contradição, vivendo em um mundo capitalista que ele critica e combate, mas que também transforma a arte e artistas em mercadoria.


Sebastião Salgado é frequentemente acusado de “estetização do sofrimento”. Porém, a escritora acredita que, apesar de algumas críticas serem necessárias e alguém tão relevante como o fotógrafo sempre receberá muitas delas, a arte é estética. Por isso, ela nos convida a ver o mundo esteticamente. A fotografia não foge disso uma vez que escolhas estéticas são também parte do processo fotográfico. A geógrafa diz não se sentir incomodada por esse fato, afirmando que é a estética que faz com que o público pare nas imagens de Salgado e as queiram admirar, pensar e acessar realidades distintas da sua (e muitas vezes distintas das que aparecem na grande mídia) a partir de um sentimento artístico, algo que ela considera muito poderoso. Apesar de ser necessário nadar contra a corrente da superficialidade e da aceleração cotidiana para embarcar nessa viagem, algo nada fácil numa sociedade expansiva e capitalista, que promove crises de representações imagéticas e as existenciais; a escritora acredita que imagens também educam. Isso acontece justamente porque elas inquietam e “sempre emergem algumas que nos fazem parar, respirar, sentir, imaginar”. Flora relembra a também escritora Pavarti Nair que igualmente defende que a estética de Salgado é um convite ao engajamento e reflexão sobre como recebemos a narrativa proposta, como vemos fotografia e como agimos perante a elas. “Tudo isso definido pelo espaço geográfico e, simultaneamente, definindo-o”. A mesma autora questiona se teria sido melhor se o fotógrafo não tivesse divulgado as imagens, e tanto Flora quanto Pavarti, concordam em achar que este não é o caso.


Se debruçando sobre as paisagens que aparecem nas imagens de Salgado e o elemento humano que muitas vezes a acompanha, a geógrafa começa afirmando que nós, humanos, transformamos as paisagens e as paisagens nos transformam. “Uma parte da nossa identidade é geográfica”, afirma. Para compreender as pessoas, suas subjetividades e suas relações sociais, Flora acredita ser necessário que olhemos também para onde elas estão e como vivem, pois, isso também faz parte de quem elas são. Por isso, criou a ideia de “paisagem-fotografia” para que ficasse evidente que “o corpo dos sujeitos representados, o do fotógrafo e o corpo da paisagem são um só – é um encontro carnal, para além da percepção. É pertencimento”. Dessa forma, para a escritora é impossível ver o cenário separadamente de outros elementos da fotografia, tudo e todos os presentes formam a paisagem. No caso de Salgado, ela ainda afirma que o fotógrafo se integra à paisagem, tornando-se parte dela e conseguindo uma mescla única. Ao mesmo tempo que está próximo aos sujeitos fotografados e assim consegue absorver os detalhes de cada um deles, ele também absorve em suas imagens o contexto que ele se encontra, “multiplicando pontos de vista sobre paisagens”. Por esse motivo, cada fotografia possui sua história própria e pode ser lida autonomamente. Porém, a experiência de compreender a narrativa como um todo, num livro ou exposição, é enriquecedor e dá a chance do espectador se transportar de “uma paisagem a outra, em um encadeamento de nós espaciais que se interligam em uma rede de correlações visíveis e invisíveis”.

Quando questionada se em sua pesquisa ela chegou a alguma conclusão se as fotografias têm ou não o poder de mudar nossa realidade, Flora diz saber que o olhar crítico pode levar por um caminho desanimador, devido a quantidade de mazelas e injustiças que existem. Porém, acredita que ao conhecer outras relações e visões, “resistimos a um mundo que nos nega e nos oprime de maneiras tão fortes e potentes (...). Costumo dizer que vivemos em uma berlinda entre o desencantamento e o reencantamento”. Por mais que seja impossível não se sentir baqueado por uma estrutura que ainda é tão perversa, ela conta ser igualmente impossível não se contagiar pela potência nos encontros que vive, seja na sala de aula, nas relações pessoais, nos grupos de militância ou na arte. Assim, a geógrafa acredita no “encantamento como uma política de vida”, como proposto por Luiz Antônio Simas e Luiz Rufino, e a fotografia está inclusa nisso como arte e como crítica que carrega uma utopia. “O que o sistema esquece é que temos a capacidade de refletir e de criar, porque sentimos, nos emocionamos e essa é a base do encantamento e do re(existir)”.

A obra de Flora abre um espaço para a arte, o científico e o documental se conectarem. Apesar de ter sido questionada se o que fazia se encaixava no campo da ciência ou da Geografia, a escritora sabia a relação clara entre todos esses campos. A paisagem, que é uma categoria de análise na Geografia, foi conceituada na arte, é uma palavra que já carrega essa interseção. A ciência, quando vista como experiência do ser abrange subjetividades, representa e propõem visões de mundo diversas. E o documental, nesse caso na fotografia, é ao mesmo tempo científico e artístico pois mesmo a arte tem sua técnica e seus métodos, mas também sua liberdade, e é nesse caminho que Flora acredita que a ciência deve seguir para cumprir seu verdadeiro papel social. Dessa forma, a autora seguiu esse entrelaçamento e o diálogo que nasceu dele propõem uma geoestética e uma geopoética muito dinâmica e múltipla. “Então, como eu já coloquei, somos a paisagem e, por isso, o que mais me chamou atenção ao trabalhar com a paisagem foram as pessoas, como elas são a paisagem e como eu também sou”.


Leia a tese completa da Flora Souza. O livro Geo Foto Grafia: narrativas espaciais nas imagens de Sebastião Salgado está disponível em nossa loja.



Fotos: Sebastião Salgado. Imagens mostradas no livro da Flora e que lhe serviram na construção da sua tese.

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