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Entrevista com Joanna Arong, a cineasta que enfrentou o tufão Yolanda com poética e sensibilidade

Atualizado: Mai 7


Joanna Vasquez Arong é uma cineasta filipina da cidade de Cebu, formada em Ciências Políticas/ Estudos Internacionais pela faculdade Boston College e mestra em Desenvolvimento e Estudos Ambientais na London School of Economics. Em 2002 se mudou para Pequim, e abriu um espaço para o cinema em sua carreira que era exclusivamente acadêmica. Em 2007 teve seu primeiro filme premiado, o documentário Neo-Lounge que conta a história de imigrantes que foram para Pequim para romper com seus passados. Seus outros trabalhos premiados são The Old Fool Who Moved The Mountains (Yugong Yishan) em 2008 e Sunday School em 2010.


Nesse ano de 2021, seu trabalho To Calm the Pig Inside (Ang Pagpakalma sa Unos) foi um dos documentários nomeados pelo World Press Photo, um dos maiores concursos de fotojornalismo do mundo, na categoria Digital Storytelling. A obra apresenta os efeitos que o tufão Yolanda causou na região natal da cineasta, mergulhando nas experiências e traumas do povo que passou pelo desastre natural. Uma voz feminina acompanha a narrativa documental, contando histórias locais que foram sendo cultivadas por gerações para que se explicasse os fenômenos naturais, dividindo suas sensações ao visitar a cidade devastada e outros detalhes das informações que correram a cidade. Para além de se apresentar as consequências de eventos climáticos extremos, Joanna traz uma potência poética e uma experiência sensorial única para sua obra ao dividir suas raízes e as dores causadas pela destruição.

Retrato de Joanna por Veejay Villafranca

Você tem uma rica formação em ciência política, economia e desenvolvimento internacional. De que forma todo esse conhecimento influenciou sua escolha de falar sobre o tufão Yolanda? Houve um pivô específico quando você escolheu esse tema?


Costumo trabalhar em histórias que de alguma forma refletem o estado em que estou no momento. Na época em que o tufão Yolanda atingiu a costa, eu estava trabalhando no desenvolvimento de outro filme, meu primeiro longa-metragem de ficção. No primeiro mês após o ataque do Yolanda, todos que eu conhecia da minha cidade natal, Cebu, largaram tudo e tentaram ajudar do seu próprio jeito. E no meu caso, meio que inadvertidamente, o evento dominou minha vida nos anos seguintes.


No dia logo após ao tufão, voei para a França para lançar um outro projeto, e Yolanda / Haiyan estava em todos os noticiários. Era tudo em que eu conseguia pensar, especialmente depois de ver nosso presidente na época se concentrando na precisão do número de mortos ao invés de demonstrar mais empatia. Então, embora eu estivesse em Paris naquele mês, mantive contato com várias pessoas de casa todos os dias. E por acaso, eu também acabei conhecendo um produtor francês que estava ansioso para filmar as consequências de Haiyan e precisava trabalhar com um produtor local para coordenar e organizar tudo.


Assim que voltei às Filipinas, viajei por todas as áreas afetadas pelo tufão na região. Foi aí que comecei a ouvir histórias pessoais comoventes que as pessoas compartilhariam comigo. E finalmente, depois de tudo que tinha visto e ouvido, também decidi iniciar um programa de bolsas, o Eskwela Haiyan, para jovens vítimas do tufão. Essa iniciativa me levou a passar mais tempo em Tacloban e Guiuan, duas das áreas mais afetadas, e por meio desse programa, pude ouvir também as histórias dos alunos e professores.


Eu senti que a maioria dessas narrativas não estavam sendo realmente compartilhadas no noticiário. Foi dessa forma que finalmente decidi compartilhar essas histórias por meio de um filme. Tentei entender o desastre concentrando-me em como as pessoas lidaram com o trauma profundo dessa experiência e nesse processo acabei cavando também minhas próprias memórias.


Em termos de como meus estudos anteriores ou experiência em ciência política, economia e desenvolvimento internacional entraram em jogo - como dizer - é de alguma forma sempre uma parte de mim e do meu interesse e curiosidade, então, na verdade, naturalmente se torna parte das questões que eu tendo a explorar. Acredito que em todos os meus filmes, embora talvez não necessariamente na questão principal, tendem a ter narrativas que se enquadram dentro de um contexto social ou econômico.



Como foi a experiência de ser uma das indicadas no prêmio World Press Photo?


É sempre um grande privilégio ser selecionada para festivais ou ser nomeada para um prêmio. Em grande parte, estou feliz que o filme esteja ressoando em pessoas diferentes, por meio dos diversos membros de júris, por exemplo. Além disso, agora estamos tendo a chance de expandir nossa plataforma e fazer com que nossas histórias cheguem potencialmente a um público mais amplo por meio do reconhecimento.



Seu primeiro filme foi lançado em 2006. Que tipo de trabalho você tinha antes de ser cineasta? E como foi sua transição para se tornar a artista que é agora?


Acho que sou um pouco camaleônica. Tive uma ampla gama de empregos anteriores em finanças, consultoria, international development e, atualmente, também trabalho como freelancer em cinema, design espacial, design gráfico e escrita. A principal diferença em relação aos meus empregos corporativos e institucionais anteriores é a segurança e uma renda estável, que eu realmente não tenho agora como freelancer. Mas, por outro lado, ainda trabalho as mesmas longas horas. E embora agora eu esteja trabalhando principalmente como criativo, ainda uso muito as habilidades organizacionais, analíticas e de orçamento que usei no meu passado.


Com formação em liberal arts, sinto que posso enfrentar a maioria dos problemas com pesquisas adequadas, bem como colaborar com as pessoas certas. Uma coisa que continuo a incutir em mim mesmo é a disciplina de reservar um horário específico para o meu tempo “criativo”: o tempo de conceituar e escrever. Eu sinto que 80% do meu tempo é sobre organização, administração, arrecadação de fundos etc., o que de alguma forma é mais fácil para mim. Enquanto a parte criativa, é na verdade apenas 20% do que eu faço (se eu tiver sorte). Ainda sonho que um dia poderei expandir o tempo que dedico à criatividade.



Fabio Erdos, um dos jurados do WPP, falou em sua entrevista para nosso blog sobre a força poética de que To Calm the Pig Inside. Como você construiu a estética do seu filme e de que forma você quer que essas escolhas ajudem a contar a história?


Uma vez que decidi escrever o filme em forma de um ensaio e partindo do meu ponto de vista, basicamente contando histórias que me foram retransmitidas, a forma surgiu. Também decidi que não era importante citar nomes específicos, então eu não precisava mostrar algum rosto ou nome exato. Então, fiquei livre para usar qualquer imagem para representar as pessoas de quem estava falando. Uma vez que o filme apresenta algumas fotografias estáticas, bem como ilustrações infantis, o design de som intrincado e sensível tornou-se ainda mais importante para evocar como deve ser viver durante um tufão. Decidimos fazer o filme em preto e branco, pois muitas das fotos com as quais estávamos trabalhando eram em PB, e pensamos que trazia o tom que estávamos procurando. E no último minuto, decidi manter as ilustrações das crianças em cores, pois me lembrava de como os alunos que as desenhavam contavam sua experiência durante o desastre, mesmo que anos depois, como se tivesse acontecido no dia anterior.




É de uma extrema importância falar sobre desastres naturais. Este filme muda a percepção que temos sobre a natureza e a crise climática que o mundo vive. Mesmo que seu trabalho seja sobre uma situação específica, você acha que é fácil relacioná-lo com outras situações atuais? Como você acha que To Calm the Pig Inside chegou aos espectadores?


Fiquei surpreendida de forma muito agradável com a recepção do filme em todo o mundo e com o reconhecimento que obteve através dos concursos dos festivais de cinema em que foi escolhido para exibição, bem como dos prêmios que ganhou. Além disso, o filme está sendo escolhido para exibição em vários festivais ambientais / ecológicos ao redor do mundo. Ao relatar como as pessoas estão lidando com o trauma infligido primeiro pelo desastre natural e depois pela maneira como os desastres foram tratados, sinto que nosso filme está dando um rosto humano à experiência e à crise climática.



O que você gostaria de alcançar com sua produção de filmes? Onde você quer que suas obras cheguem? Com quem você quer falar? Que histórias você quer contar?


Espero que no futuro seja mais fácil encontrar financiamento e os colaboradores certos para diferentes tipos de projetos. Sonho que um dia serei capaz de dedicar pelo menos 50% do meu tempo ao processo criativo, ao invés dos 20% atuais. Percebo que quando vejo meus filmes, embora pareçam ter temas diferentes como uma boate em Pequim, uma família na Zâmbia e agora o super tufão Yolanda, sinto que definitivamente meus filmes são sobre ciclos, gerações, traumas intergeracionais e tradições que são transmitidas. E também os efeitos que isso tem sobre a comunidade, a família e como as pessoas lidam com isso. Acho que, no cerne de meus filmes, provavelmente continuarei a explorar essas questões, embora de várias formas.



Confira a seguir o trailer de To Calm the Pig Inside.


Todas as mídias aqui utilizadas foram cedidas pela cineasta Joanna Arong.

Para conferir o filme na íntegra visite o site do prêmio World Press Photo aqui.