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Fábio Erdos: de vencedor a jurado do concurso World Press Photo

Atualizado: Mar 26

Fábio Erdos é um cineasta documentarista e fotógrafo de 38 anos, nascido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul e atualmente reside nos Estados Unidos com sua esposa, uma fotógrafa jornalística estadunidense. Morou no Rio de Janeiro por 10 anos, onde deu o ponta pé inicial para sua carreira ingressando e se formando na escola de cinema Darcy Ribeiro, no curso de direção. Sua jornada possui fortes raízes em sua experiência de 5 anos na ONG ActionAid, onde trabalhou no combate a pobreza em locais como comunidades rurais no Nordeste do Brasil, no Haiti, um ano após o terremoto de 2010, e em comunidades rurais em Moçambique. Foi nesse momento de sua vida que o cineasta decidiu que gostaria de trabalhar especificamente com cinema documental, contando histórias como as quais ele encontrou em sua trajetória na ONG. Fábio relata como desde novo tinha muita paixão por cinema, mas foi trabalhando na ActionAid que ele entendeu o seu “porque” fazer cinema. Atualmente trabalha como freelancer, faz parte da agência de fotos Panos Pictures e planeja se dividir entre os Estados Unidos e o Brasil quando o momento de pandemia terminar. Recentemente teve seu primeiro filho, que completou 1 ano em fevereiro, e conta que apesar de não ter conseguido colocar em prática alguns projetos, principalmente os que estão planejados para solos brasileiros, foi um ano de muito resguardo, convívio familiar e estudo.


Em 2019 o documentarista foi ganhador no concurso World Press Photo na categoria Digital Storytelling, pelo seu documentário “Marielle e Monica” produzido pela The Guardian. A obra mostra os dias da viúva de Marielle Franco, Monica Benício, durante as eleições de 2018 de forma sensível e profunda. O concurso World Press Photo, organizado pelo World Press Photo Foundation, é um dos maiores na área de fotografia e cinema documental no mundo e anualmente reconhece e celebra projetos da área. Em 2020, Fábio foi convidado pelo World Press Photo para ser jurado na categoria Digital Storytelling, transitando de participante para avaliador.


Fábio conta que um dos principais propósitos de seu trabalho é de “proporcionar a experiência de conhecer, através de uma conexão emocional, uma realidade distinta da do espectador”. Ao documentar vidas, o artista deseja quebrar paradigmas e preconceitos, proporcionando conexões entre indivíduos. Mesmo sabendo que se pode cair em uma certa ilusão, ele espera que seu trabalho permita, mesmo que lentamente, engajar uma mudança na percepção que a sociedade tem sobre alguns temas. Apesar da infância privilegiada, o documentarista afirma que foi apresentado a diferentes realidades a partir de experiências marcantes de sua vida, e isso o mudou e o marcou profundamente. Assim, o que ele busca em seu trabalho é oferecer experiências transformadoras como as que ele teve, pois sabe com propriedade da potência que um episódio dessa natureza pode ter na vida de alguém. Ainda que o artista enfrente as dificuldades físicas e psicológicas de documentar mazelas sociais e cenários delicados, ele afirma que seu desejo por justiça é seu principal combustível. Ele sente uma necessidade de contar essas histórias para que elas possam atingir alguém e, gradativamente mudar a forma de agir e pensar de seu público.


O documentarista se diz no início do seu processo na descoberta de sua linguagem artística, mas que detecta nos tempos atuais a necessidade de se comunicar de forma sucinta e fácil. Dessa forma, chegou a características chaves para suas narrativas: elas são intimistas e pessoais. Isso porque esses atributos estão frequentemente presentes em seu trabalho, em conjunto com a sensibilidade, e surgiram de forma espontânea. Não quer dizer que isso seja sinônimo de sua linguagem ter nascido naturalmente, explica o cineasta, e sim “como resultado de uma entrega intensa, de corpo inteiro. São nestes momentos que sinto meu trabalho se expressar com mais potência”. Fábio espera que sua forma autêntica de se comunicar ficará cada vez mais evidente no decorrer de sua jornada, sem se entregar a uma pressa na busca de descobrir sua linguagem. Ele acredita que essa urgência pode justamente nos afastar das possibilidades e por isso busca preservar sua intuição, para que possa se comunicar de forma genuína.


Falando um pouco sobre sua obra “Marielle e Monica” e seu reconhecimento no concurso World Press, o documentarista afirma que essa foi uma conquista incrível em sua carreira. O documentário já havia recebido uma certa visibilidade uma vez que é uma produção do The Guardian e está disponível nos seus sites e canais, mas receber o prêmio coloca essa pauta num contexto internacional. “E era esse exatamente o nosso propósito, levar esse grito de pedido de justiça ao palco do WPP e a toda a visibilidade que o prêmio oferece”. Fábio afirma que a força de Marielle e Monica possui a capacidade de mobilizar e inspirar pessoas ao redor do mundo, e exibir essa potência é também um agradecimento à Monica por sua entrega e generosidade com a produção do filme, mesmo que num momento de muita angústia e dor.


A experiência de ser premiado também ofereceu uma sensação de realização própria, afirma o cineasta. “Senti que toda a minha entrega e dedicação foi de certa forma reconhecida, e que o filme tinha o potencial de sensibilizar”. Fábio acredita que apesar do papel e relevância de premiações seja um tema controverso, ele entende que foi algo que o entregou um importante suporte emocional em sua carreira. “Incertezas, inseguranças, sacrifícios, são constantes em áreas artísticas, e reconhecimentos como estes oferecem um apoio, muitas vezes um sinal, de que estamos em um caminho coerente. Servem de incentivo para que a gente continue, que devemos acreditar em nós mesmos”.


Após o sucesso da obra de Fábio em 2019, ele foi convidado a compor o júri do World Press de 2021 na mesma categoria que foi vencedor. O cineasta afirma que foi um imensa responsabilidade uma vez que “as nossas decisões como júri impactam enormemente a visibilidade, ou a invisibilidade, de uma história”. O prêmio, como próprio Fábio sentiu, possui a capacidade de servir de apoio para os realizadores que se doaram imensamente para suas obras, e o júri possui a decisão de dar mais ou menos atenção para cada um dos projetos. Além disso, o documentarista conta que, em razão da pandemia, todo o trabalho como jurado foi em ambiente online, não existindo o tradicional encontro de toda a banca para a avaliação dos projetos. Infelizmente, Fábio sabe que perdeu um pouco da experiência, mas ainda sim houveram longos encontros virtuais de conversas e reflexões que tornaram o processo engrandecedor. “Assistir mais de cem produções, participar de longas conversas onde é necessário expor percepções e suas justificativas, foi um imenso aprendizado. Aprendi muito sobre o que funciona, e o que não funciona tão bem em uma obra. E o porquê”.


A experiência de ser premiado e na sequência jurado fez Fábio perceber o tamanho do desafio que é ser premiado por um festival como o WPP. O artista explica que há uma grande exigência na qualidade e no impacto da produção, além de uma subjetividade do júri que foge ao realizador. “Quem são eles, quais os temas que mais os sensibilizam, quais histórias já conheciam etc. Todos esses elementos precisam estar alinhados para que você seja premiado no festival”. Ter sido premiado anteriormente fez com que o cineasta sentisse uma responsabilidade especial ao compor o júri. Ele sabe os enormes obstáculos que são encontrados nessa profissão e dos sacrifícios que os realizadores fizeram para produzir histórias como as que foram premiadas esse ano, acreditando que por isso sua dedicação deveria ser dobrada.


Fábio ao contar mais sobre os bastidores de ser jurado, explica que o prêmio WPP é uma retrospectiva de alguns dos temas principais que aconteceram no ano, e essa importância das temáticas pesou em seu processo de avaliação. Existem outros critérios também, como qualidade visual e sonora, estrutura narrativa e o impacto da história. Esses parâmetros são pontuados após assistir todos os inscritos de cada categoria, que no caso de Digital Storytelling são interactive, short e long. A partir daí, o júri analisa, conversa, avalia e define as obras que seguem para próxima fase, até chegarem nas nomeações do ano. “As conversas, reflexões, exposições de diferentes opiniões tornam o encontro fascinante, e proporciona um enorme aprendizado. Essa dinâmica exige conseguir expor e comunicar as suas próprias percepções, que muitas vezes são subjetivas, abstratas, mas que se torna necessário expressá-las em palavras. Este exercício gera um maior entendimento sobre as potencialidades de uma obra”.


O resultado do concurso foi divulgado recentemente e o entrevistado conta um pouco o que fez dessas obras as premiadas. O júri desejou que a lista de nomeados oferecesse um panorama dos temas mais relevantes de 2020, bem como comtemplasse temas atuais sobre a condição humana. “A capacidade de oferecer uma conexão emocional e uma maior compreensão sobre a condição humana é o que considero o maior potencial de obras audiovisuais. Em tempos tão difíceis como esse que estamos passando, estas capacidades se tornam ainda mais importantes”. Durante a avaliação, foi notado se as obras ofereciam uma imersão ao público, se havia harmonia e qualidade nos elementos da produção sejam eles visuais, sonoros ou de edição que fortalecessem a experiência do espectador.


Oito obras foram contempladas pelo prêmio. Na categoria interactive, Fábio afirma que foi uma experiência muito rica explorar essas obras. Apesar de ser mais difícil falar sobre a estrutura narrativa dos projetos, para o documentarista fica claro que há muita cratividade na execução e é necessário uma estratégia para fazer as decisões em prol da funcionalidade. “O importante, de uma forma generalizada, é que o equilíbrio entre os elementos narrativos e interativos se relacionem de forma coerente com o propósito do tipo de experiência que a obra se propõem a oferecer”. No caso da obra sobre os protestos após a morte de George Floyd, o avaliador acredita que a obra consegue proporcionar uma experiencia crua e real a partir dos mais de 140 vídeos dos atos postados nas rede sociais, contando com um ótimo design voltado para a navegação em seu conteúdo. Já a obra “Birth in the 21st century”, a interatividade oferece informações adicionais a história que está sendo revelada, possibilitando o espectador de gerar seu próprio plano de parto motivado pelas narrativas apresentadas na obra. Fábio explica que buscou produções que têm o potencial de modificar as percepções de quem vê, possibilitando que o espectador saia diferente de como entrou na experiência.


Na categoria short, o documentarista conta que essas obras narram acontecimentos mais concisos e por isso é necessário que a narrativa engaje rápidamente o espectador, com um forte protagonista que deseja fortememte por algo, entregando autenticidade e profundidade para que aconteça uma conexão emocional com a história. “Apresentar uma estrutura narrativa bem definida, com uma história ou jornada do personagem bem construída, é um ponto essencial”. Apesar desse conselho, Fábio afirma que é possível quebrar essa estrutura mais clássica, como fez a obra “The Eternity of Tomorrow” ao utilizar um tema bastante amplo sobre a luta e resistência de um dos maiores povos indígenas do Chile, os Mapuche. “A história é contada pela perspectiva de uma criança, o que torna a obra mais lúdica. Isso estabelece um desprendimento da necessidade de uma estrutura mais clássica, e nos permite desfrutar uma estrutura mais poética”.


A última categoria é a long, o cineasta descata “Blood Rider” pelo seu grande potencial de desafiar estereótipos ao expor um sistema de saúde em crise na Nigéria, o sacrifício e o trabalho heroico de pessoas que geralmente não são reconhecidas pelo seus feitos. “No nosso dia a dia cruzamos com diversas pessoas como o Joseph, do filme, mas não é sempre que vemos uma história incrivelmente bem contada sobre estes verdadeiros heróis, principalmente de regiões do mundo tão estereotipados como o continente Africano”. Falando agora sobre “To Calm the Pig Inside”, que trata das consequências e traumas que um tufão e desastres naturais no geral causam, o avaliador ressalta a potência poética, o impacto das imagens e a experiência sensorial. “Em tempos de crise climática, obras como essa tem uma função importante na forma como sentimos, pensamos e agimos quanto a nossa relação com a natureza”.

Ao aconselhar jovens que desejam que seus trabalhos brilhem nos palcos do concurso World Press Photo, Fábio diz para que os artistas inscrevam seus trabalhos todos os anos. A inscrição é gratuita e simples, então a principal tarefa é se organizar e inscrever os melhores projetos que tiverem produzido no ano. Ele segue lembrando da importância da relevância da história e da capacidade da narrativa se relacionar com questões e condições humanas dos nossos tempos de uma forma mais ampla. “Talvez o mais importante de tudo seja a entrega pessoal. A dedicação do realizador no seu projeto. É difícil prevermos onde um projeto pode chegar quando ele está no início ou para onde ele irá nos levar. O que podemos ter certeza é que se nos dedicarmos ao máximo, nos entregarmos de verdade para a história, o resultado será o melhor e o mais potente possível”.


Fábio finaliza comentando sobre sua relação de admiração com fotolivros. “Acredito que a sua materialidade oferece uma qualidade permanente para a obra. As fotos físicas, o livro físico, é capaz de proporcionar um intenso engajamento emocional com a narrativa, o que o torna tão fascinante”. O artista sonha em um dia transformar seu projeto “Vale Sagrado do Perú”, sobre os efeitos da crise climática na cultura do povo Quechua, em um livro mas acredita que antes disso há um longo caminho que ainda quer percorrer: “Preciso continuar fotografando por um bom tempo para pensar em um projeto de livro”.

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