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Fotojornalismo para se documentar a irreversibilidade da pandemia (e contestar a apatia)

Atualizado: Mar 26

Por Rafael Schoenherr *


* jornalista, professor na UEPG, coordenador do projeto Lente Quente, diretor de acervo do Museu Campos Gerais.

Esta fotografia foi uma das vencedoras do concurso promovido pela Artisan Raw Books e o jornal EL PAÍS sobre a crise da COVID-19 nas periferias do Brasil e publicadas no livro Periferia. O livro está a venda em nossa loja. Foto: Luca Meola


Não é o telejornal emotivo nem o alarme da notícia minuto a minuto. Não é o mapa ilustrado em cores nem os inumeráveis boletins estatísticos ou os especialistas a falar por horas. Muito menos seria o micro panfleto incendiário ou negacionista do grupo de conversa furada no celular. São, neste momento, as fotos jornalísticas que documentam, mostram, evidenciam, comprovam e projetam (ou transferem) a experiência de se estar diante da morte em massa pela pandemia do novo coronavírus desde março de 2020.


O país avoluma 250 mil mortes em 11 meses de crise sanitária aguda. A dimensão disso só se faz inteligível, em grande medida, pela força da fotografia cotidiana e da - sempre esquecida, mas não menos importante – edição fotográfica em publicações dignas de reconhecimento.


Que o digam/mostrem as imagens de Raphael Alves em Manaus ou Manacapuru. Pessoas morriam em casa por falta de hospital, tratamento e oxigênio já no primeiro semestre de 2020. Os cemitérios tornam-se insuficientes, abrem-se valas comuns, em tons acinzentados escuros. Para Alves, essas são as cores e os contrastes acentuados dessa doença avassaladora, que aguça as diferenças sociais.

Esta fotografia é do fotolivro Insulae de Raphael Alves. A obra realizada pela Artisan Raw Books foi vencedora do prêmio POY Latam 2021 e está disponível em nossa loja.


Ao mesmo tempo, no princípio disso tudo, frente buscas incansáveis por compreensão do quadro atual, outro fotógrafo brasileiro mostrava os impactos da então nova doença em uma cidadezinha na Itália. André Liohn retratava famílias ao redor da cama, velando seus mortos, idosos sendo socorridos por equipes hospitalares – como num quadro renascentista.


Aos poucos, começam a circular as primeiras imagens do que se tenta fazer com um paciente de Covid-19 em uma UTI em países como Itália, França, Alemanha e Reino Unido. Muito por conta de um enfermeiro fotógrafo a publicar seus registros de trabalho na rede. Chegam também as fotos das primeiras homenagens simbólicas aos mortos, às equipes médicas, seguidas dos registros da cidade morta, sem circulação, o lockdown – a antítese pura do capitalismo de alta circulação (de mercadorias e pessoas, também de imagens?).


Ainda nos primeiros meses no ano passado, o fotojornalista Marco Favero já dava indícios de que o novo coronavírus gerava isolamento e morte também no sul do Brasil. A adaptação dos costumes à nova realidade, entre a crença do retorno à normalidade e a percepção tênue da irreversibilidade. Em São Paulo, uma das fotos de Victor Moryiama – um edifício com as luzes acesas, a população recolhida e, sugestivamente, assustada, ao contrário do desdém desinformado da propaganda do Governo Federal - coloca o Brasil no mapa jornalístico e imaginário da pandemia. Aqui também se busca sobreviver, apesar (ou à revelia) dos governos e do capital, que naquele momento, para variar, nos queria mortos e enterrados.


O repórter fotográfico Yan Boechat flagra as periferias das grandes capitas, a dificuldade dos hospitais e vai além. No segundo semestre de 2020, ganham grande repercussão suas fotos das queimadas descontroladas no pantanal brasileiro. Tragédias desassociadas? Na verdade, por efeito associativo da atualidade, simultaneidade e sucessividade da cobertura e da circulação da fotografia nos espaços jornalísticos, denunciam-se crises dentro da mesma crise. Esse poder de conjunção e convergência temática não se viu mesmo em artigos de opinião respeitáveis – não com as mesmas cores, a mesma simplicidade efetiva de um olhar também espantado, de incredulidade e não detentor de uma opinião já formulada.


Afinal, na foto daquele ipê, trata-se de reviver ali, por delegação do olhar sensível do fotógrafo que lá esteve, o impasse entre homem e natureza, gerador de desastres ambientais irreversíveis e, também, da mutação de vírus devastadores. Pudemos acompanhar nesse tempo pandêmico densas documentações fotográficas ‘em tempo real’ de indígenas devastados pela Covid-19.

Esta fotografia é do fotolivro Insulae de Raphael Alves. A obra realizada pela Artisan Raw Books foi vencedora do prêmio POY Latam 2021 e está disponível em nossa loja.


Vínhamos nos preparando para isso, como receptores de imagens. Caso contrário, é de se pensar se os novos registros fotojornalísticos surtiriam efeito ou cairiam num vazio interpretativo, numa espécie de “grau zero” significativo de Barthes. Basta pensar quais foram as fotos documentais de impacto que você via e das quais lembrava à noite logo antes de todo esse inferno da pandemia começar.


Imagino que para muitos, assim como para mim, a referência mais imediata seja o trabalho de Christian Cravo sobre o desastre de Mariana – umas das mais tocantes exposições a que tive acesso (daquelas para revisitar e aprender tudo de novo). Trata-se de sensibilizar para algum tipo de indignação, sem ser taxativo ou simplista, mas por ser atento ao detalhe que virou a vida humana (aquele par de escovas de dentes) naquele mundaréu de interesses corporativos, privados e globais do mercado financeiro convertido em expropriação do território e dos recursos naturais de um país que se diz soberano. As fotos que lá estavam conseguem dizer mais com menos.


Ali também estávamos num tipo de limite da interferência humana, social e industrial capitalista global sobre a natureza. Mais tarde, durante uma das fases árduas da pandemia, o trabalho igualmente valioso de Isis Medeiros iria retomar a temática das barragens e evidenciar a irreversibilidade de certas catástrofes respaldadas por medidas – aí sim – bem pensadas e arquitetadas por poderes constituídos, sejam eles políticos ou econômicos.


Se estávamos à procura de uma imagem técnica para a bela passagem de um dos livros da escritora Svetlana Alexiévich (o desastre nuclear de Chernobyl inaugura um tipo de catástrofe imensurável no tempo e no espaço), o fotojornalismo brasileiro – esteja onde estiver – acaba de gerar um correspondente à altura, que nos toca e, talvez, mais adiante, nos tire dessa imobilidade contra a gestão pública da pandemia em solo brasileiro à que assistimos na TV. Cada nome aqui mencionado esconde dezenas ou talvez centenas de outras – daí a força, ainda hoje, do fotojornalismo brasileiro.

Estas fotografias foram uma das vencedoras do concurso promovido pela Artisan Raw Books e o jornal EL PAÍS @elpaisbrasil sobre a crise da COVID-19 nas periferias do Brasil e publicadas no livro Periferia. O livro está a venda em nossa loja. Foto da esquerda: Larissa Rocha. Foto da direita: Fiona Forte.



Periferia e Insulae estão disponíveis em nossa loja.

Confira Periferia aqui. Confira Insulae aqui.

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