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Gui Christ vai de encontro às fissuras da Cracolândia de São Paulo

Atualizado: Jan 22

Entrevistamos o fotógrafo Gui Christ sobre seu novo fotolivro Fissura. Ele conta sobre a experiência do antes, durante e após a realização do projeto. Conheça sua obra aqui.

O fotolivro Fissura é um diário de campo produzido por mais de dois anos na Cracolândia de São Paulo. Gui Christ doa em sua obra um olhar humano e acolhedor sobre diversas pessoas que vivem na região, expondo sua relação com as drogas e com o ambiente. O artista já experiente na área da fotografia documental, com trabalhos publicados em veículos como o Washington Post, Time Magazine, National Geographic e BBC, foi para a Cracolândia para documentá-la após uma ação policial em 2017. O que ele diz ter encontrado ia muito além do estereótipo de abandono que o maior mercado de drogas a céu aberto do mundo carrega. Era um lugar com forte presença do Estado, principalmente com uma polícia e guarda civil extremamente truculentas, fazendo o controle da população e da violência, a serviço de uma “faxina” aos olhos de quem passa.


Gui afirma que sempre ouviu que a Cracolândia era um lugar de perdição, que homens, mulheres e crianças perdiam suas almas nas ruas sujas até virarem quase zumbis. Após a violenta ação policial, com bombas, tiros e correria, a mídia se concentrou no lugar para cobrir a situação. O documentarista foi até lá alguns dias depois. Em função da larga presença policial e da falsa sensação de segurança que ela trazia, o fotógrafo conseguiu adentrar no bairro. O que ele encontrou lá não era apenas o mercado de crack, mas também toda uma população que residia na área por diversos motivos e com eles muitas histórias. Narrativas nunca ouvidas pela sociedade, sem qualquer espaço em meio ao grande fenômeno midiático que se tornou a Cracolândia.


Essa situação foi o pontapé de seu projeto. O artista buscava contar a história da Cracolândia de uma forma diferente do que havia sido feito pela grande mídia. Assim, ele se aprofundou na região e encontrou uma ONG que oferecia refeições e banho para os moradores. Ali ele viu um espaço onde todos os outros olhares não haviam penetrado, um lugar que oferecia uma proteção para ele e estava cheio de gente. Porém, apesar da permissão para fazer imagens, as pessoas não aceitavam ser fotografadas em função do forte estigma social que carregam. Os moradores da região já conheciam as fotografias que eram feitas na grande mídia, colocando-os em uma situação degradante do uso de droga, como parte de todo um cenário precário e nunca como seres humanos dignos.


Gui iria para casa sem grandes resultados se não fosse o morador que o parou e pediu para ele fazer uma 3X4 para seus documentos, pois queria procurar um trabalho. Logo depois uma moça também pediu o mesmo, mas dessa vez para mandar a fotografia para sua família e mostrar que estava viva. Foi assim que o fotógrafo entendeu como acessar essas pessoas, que tinham uma grande demanda de fotos uma vez que muitos ficavam sem seus documentos, perdendo-os ou vendendo-os para a compra de drogas. Passou então a montar um estúdio portátil de 3X4 na ONG, com idas semanais ao lugar, fazendo fotos e entregando as já reveladas. Muitas vezes, o artista tentava fazer uma imagem antes do morador passar pelos cuidados da ONG e outra depois, visando trabalhar a autoestima dos retratados. Seu objetivo era mostrar, da melhor maneira possível, quem eram e como estavam essas pessoas marginalizadas e esquecidas pela sociedade. Assim, ele conta que foi feita uma relação de troca e auxílio entre ele e os moradores, dando nome e rosto para quem era estatística.



Por mais que todo o tema do crack seja um grande tabu, o documentarista encontrou na recepção do fotolivro Fissura uma larga aceitação. A obra que foi viabilizada a partir de um financiamento coletivo atraiu muita gente que tinha histórias com alguém na mesma situação que as retratadas. Seja na família, amigo ou conhecido, muitas pessoas têm relação com o tema das drogas e por isso as histórias contadas a partir das imagens tocam um público diverso: “Pequenas histórias, aquelas que estão ao seu lado e ninguém olha; mas grandes temas”. Assim, um mês após o lançamento da obra, mais da metade dos exemplares já foram vendidos. Gui acredita que o sucesso veio da temática que abraçou tantas pessoas e que está em alta na mídia. Seu projeto foi divulgado em diversos veículos ganhando visibilidade por se tratar de um olhar novo em cima da Cracolândia. Ele também lembra que o fotolivro não deixa de ser um produto que precisa ser pensado para ter um conceito e uma narrativa coesa e assertiva. Ou seja, precisa de um trabalho primoroso de edição para criar uma experiência para aqueles que mergulham nas imagens.


O fotógrafo comenta sobre as delicadezas de se trabalhar com temas sensíveis e pessoas em situações de extrema vulnerabilidade. Apesar de se envolver muito com o projeto, não mantém vínculo com as pessoas retratadas. Ele afirma que seu trabalho é criar uma rede de conscientização, mudar a visão que a sociedade tem de um grupo, e por isso acredita na potencialidade de seu fotolivro. Porém, pode ser muito decepcionante para uma pessoa em uma condição precária colocar uma expectativa em alguém que, apesar de ter prestado ajuda, não poderá salvá-la.

Apesar das dificuldades que esse ramo traz, o documentarista afirma que se sentiu acessando quem realmente precisava de ajuda. Até mesmo na etapa de divulgação do fotolivro, ele contou com a ajuda de pessoas como um ex-viciado e uma mãe com o filho em situação semelhante para trocar mensagens de força e apoio. Dinheiro é fundamental para viabilizar o projeto, mas o fotógrafo conta que esse contato com quem passa pela angústia de conviver com o mundo das drogas vale até mais que uma doação. E com toda essa profunda experiência com os moradores da Cracolândia e aqueles que se relacionam com o tema, Gui leva para o mundo seu fotolivro. Fissura tem em seu nome similaridade com a gíria usada para descrever a compulsão pelas drogas, mas vem para mostrar muito além disso: escancara nas páginas as fissuras na pele de tantos que vivem no contexto da Cracolândia, as fissuras nas paredes dos casarões que numa época passada já foram morada da alta burguesia de São Paulo e a fissura no olhar da sociedade que a impede de ver os seres humanos que ali vivem e sobrevivem.

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