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Ivana Debértolis, editora do Everyday Brasil conta sobre a potência de se fazer fotografia autêntica

Atualizado: Mar 26


Foto Grasi Barbaresco: Os irmãos Rafael e Gabriel, que vivem em uma comunidade em Duque de Caxias, RJ

Ivana Debértolis é uma fotógrafa sulista, de Cambé, moradora de São Paulo há 23 anos e atualmente atua como editora do Everyday Brasil. Esse projeto integra a organização global de fotografia Everyday Projects, nascido na Costa do Marfim em 2012 pelo fotógrafos norte-americanos Peter DiCampo e Austin Merrillcom. Os dois começaram com o Everyday Africa, na intenção de produzirem imagens mais autênticas do continente e de seu povo, documentando seu cotidiano e desconstruindo clichês que são frequentemente presentes em imagens que chegam no resto do mundo.


O projeto floresceu, ganhando força e visibilidade. Outros fotógrafos procuraram Peter e Austin para levarem o Everyday Projecs para seus países e regiões. Hoje em dia, o Everyday está espalhado em todo o globo usando da plataforma Instagram para espalhar suas imagens, sempre frisando a importância de mostrar um dia a dia longe de estereótipos e recheados de histórias verdadeiras.

Ivana, após anos de carreira fotografando, notou que não estava mais se sentindo satisfeita em trabalhar apenas como fotógrafa e foi se interessando cada vez mais por pesquisar o mundo da fotografia, principalmente a fotografia documental. No desejo de se aprofundar nessa área, ela descobriu o Everyday Projects em 2014 e se encantou. Entrou em contato com a organização para trazer o projeto para o Brasil e foi bem sucedida, lançando a iniciativa por aqui no mesmo ano. Mantendo o objetivo de documentar o cotidiano, no caso brasileiro, de uma maneira verdadeira através dos fotógrafos e fotógrafas em atividade atualmente, o Everyday Brasil já conta com mais de 40 profissionais colaboradores de todas as regiões do país e 37,3 mil seguidores no Instagram, a plataforma principal do projeto. Ivana, que parou de fotografar como trabalho em 2018, afirma “o meu lugar na fotografia não é, definitivamente, como fotógrafa, meu interesse é pelo trabalho do outro, em pensar sobre o trabalho de um fotógrafo ou fotógrafa, seja como editora, curadora ou produtora”, e por isso acredita que o Everyday Project era o que buscava e o que a completou profissionalmente. Com a parceria de Lívia Bitetti, a coordenadora do projeto que que cuida de negociações, burocracias, editais e “faz a coisa acontecer”, as duas crescem cada vez mais o Everyday Brasil.


O grande objetivo do projeto é oferecer e dar visibilidade, afirma a entrevistada. Oferecer ao público por meio da fotografia, uma visão autêntica da sociedade em que vivemos, evidenciando histórias, situações e modos de vida que, muitas vezes, não são contadas pela grande mídia. Acreditando na potência da fotografia como ferramenta poderosa para se alcançar uma riqueza de realidades brasileiras, muitas de difícil acesso, e se esquivando da deturpação de informações ao máximo. Essa arte pode derrubar estereótipos, gerar reflexão, transformação e promover conhecimento sobre nosso país. Já a visibilidade é no âmbito de dar luz aos fotógrafos e fotógrafas que estão produzindo trabalhos de qualidade em todas as regiões do Brasil e muitas vezes não tem a chance de apresentá-los. Assim, é possível entrar em contato com profissionais ainda não conhecidos pelo público a partir do Everyday Brasil.

Foto Tuane Fernandes: Marcha das Mulheres Indígenas, Brasília, 2019

Para o sucesso do projeto, foi necessário que Ivana criasse uma vasta rede de fotógrafos por todo o país. Ela foi atrás de profissionais, conhecidos ou não, para apresentar a proposta do Everyday e muitos foram se interessando. Com o passar dos anos, uma teia se formou de forma orgânica. A fotógrafa lembra que o projeto está em constante construção pois estará sempre de portas abertas para novos profissionais que desejem contribuir. A chave para atrair e dar segurança para os fotógrafos parceiros foi se aventurar e acreditar na proposta de seu projeto: “eu acreditei no projeto desde o início, só pensava em fazer dar certo, então acho que isso ajudou também. (...) eu me aventurei, acreditei, foquei e deu muito certo. A fotografia é, de certa forma, uma aventura, não?”


O Everyday Brasil posta em seu Instagram e blog pelo menos uma fotografia por dia. Ivana comenta sobre o dia a dia agitado como editora desse projeto, afirmando que se algo relevante acontece no país, a equipe vai rapidamente atrás de fotógrafos e imagens para informar seu público, mesmo que algum conteúdo já tenha ido ao ar naquele dia. Em datas comemorativas como o Dia da Mulher e o Dia Nacional da Consciência Negra, eles passam alguns dias antes já planejando o conteúdo. Em eventos de grande porte como o carnaval ou protestos que possuem adesão de várias regiões do país, o Everyday passa o dia em função de publicar sobre e o que e como aconteceu nas diversas cidades. E nos dias que não acontece nada de especial, o projeto abre espaço para diversos temas, afinal “o que não falta no Brasil é história para contar e fotógrafos(as) talentosos(as) para documentá-las”.


A editora também comenta sobre a potencialidade da plataforma Instagram, com seus benefícios e desafios, afirmando que a rede social possui muita visibilidade e alcance e por isso ajuda fotógrafos que não possuem espaço o tempo todo na grande mídia. Dessa forma, o público tem a chance de conhecer diversos profissionais, “sempre tem alguém me dizendo, por exemplo, que conheceu o trabalho de um fotógrafo ou fotógrafa por causa do Everyday Brasil”. Já os fotógrafos acabam conhecendo uns aos outros, fazendo nascer trabalhos e parcerias que não ocorreriam sem o recurso da rede social. Porém, o Instagram também tem suas limitações, e a equipe do Everyday Brasil reparou que em determinadas situações precisavam de mais tempo e espaço para contar suas histórias. Assim, surgiu em 2018 o site do projeto, onde são publicados ensaios, entrevistas, matérias mais longas com um número maior de fotos. Você pode conferir aqui.


O Everyday Projects, e por consequência o Everyday Brasil, cresceram muito nos últimos anos, ganhando uma relevância no cenário da fotografia global. As fotografias dos integrantes da organização são apresentadas regularmente nas principais publicações do mundo, em exposições, galerias e festivais internacionais. Conta também com o apoio de diversas organizações como a World Press Photo, Pulitzer Center, PhotoWings, National Geographic Society, Magnum Foundation, Women Photograph, CatchLight, Indigenous Photograph, Diversify Photo, entre outras. Ivana se sente satisfeita pois o objetivo de expor e ampliar as vozes através da fotografia, nas mais diversas localidade do mundo, tem sido alcançado. A possibilidade de crescimento que ela ainda vê está em utilizar os princípios do projeto em outras frentes, como por exemplo a iniciativa da Everyday Projects de ensinar fotografia para alunos de ensino médio. A editora afirma que tem muita vontade de trazer essa ação para o Brasil e pretendia começar a articulá-la no ano passado. Infelizmente a pandemia deu uma pausa nesse planejamento, mas a entrevistada diz que “o que gostaríamos mesmo era de poder levar esse projeto de educação para escolas públicas, isso seria um sonho, embora saibamos das dificuldades de realizar algo assim no Brasil”. Mesmo sabendo que não será fácil, ela lembra que pretende voltar a pensar nessa meta quando for o momento.


Foto Melvin Quaresma: João e Cota. Vila do Abacateiro, Pará

Em breve será lançado um festival do Everyday Brasil, nomeado de “Os desafios e o lugar da fotografia no contexto atual do Brasil”, entre os dias 25/03 a 24/04. O evento contará com cinco conversas online mais atividade de encerramento. Cada bate papo será divido pelos temas: o fotojornalismo no Brasil atual, a pandemia documentada, a sociedade e o meio ambiente, mulheres fotógrafas e o encerramento do festival.A finalidade do evento é refletir sobre a imagem e sua influência no contexto que está inserida, discutindo o papel da fotografia como ferramenta social. As conversas serão compostas por fotógrafos e fotógrafas em atividade no país, cada qual com trabalhos relevantes dentro do tema sugerido, mediadas por profissionais de destaque da fotografia (fotógrafos, editores, curadores, acadêmicos). Ivana afirma que “o festival será um extensão dos temas que já são apresentados diariamente no Everyday Brasil” e acredita que é muito necessário promover essas conversas entre fotógrafos(as) tão ricos de conteúdo, além de ser também prazeroso e engrandecedor.


Contando um pouquinho mais sobre o evento, a fotógrafa afirma que será “um encontro necessário para propor reflexões sobre pautas importantes que têm sido foco da produção de alguns dos principais fotógrafos e fotógrafas em atividade no país. O festival é também uma oportunidade para, em meio à diversidade de temas e abordagens, se analisar o impacto que as narrativas visuais podem produzir na sociedade, de modo a instigar reflexões sobre nosso tempo”. As parceiras Ivana e Lívia são as idealizadoras e estão à frente de tudo, além dos muitos profissionais envolvidos como fotógrafos (as) e mediadores (as) para a realização do evento, “gente competente que está acreditando na ideia junto conosco”. A editora sabe que o ideal para um festival de fotografia seria ter os encontros presenciais, mas lembra que perante as mudanças do mundo ocorridas devido a pandemia, o ambiente online é a possibilidade atual para que se continue crescendo, produzindo, fomentando e reunindo as pessoas de alguma forma, e agradece que há essa opção. “Vai ser o primeiro evento dessa proporção do Everyday Brasil e tenho as melhores expectativas, tenho certeza que nosso público está interessado em participar, ver o que esses fotógrafos e fotógrafas reunidos irão apresentar e discutir. Quem sabe quando acabar esse período difícil de pandemia não pensamos em um Festival Everyday Brasil presencial, é uma ideia que estamos considerando”.


A editora segue a entrevista dando dicas para jovens fotógrafos que desejam se destacar na área da fotografia documental. Ela aconselha que comecem contando e documentando histórias que estejam no entorno, podendo ser no núcleo familiar, na comunidade, em um grupo específico de pessoas e por aí vai. “A nossa volta sempre estão acontecendo coisas interessantes que, muitas vezes, a gente nem percebe, e que merecem ser contadas com um olhar mais atento e interessado”.


Para finalizar, a fotógrafa conta também que coordenar um projeto que foi ininterrupto durante a pandemia foi um grande desafio uma vez que a equipe do Everyday Brasil entendeu que não havia espaço para outro assunto naquele momento. Foram meses publicando exclusivamente sobre a Covid-19 no Brasil, mas sempre buscando diferentes ângulos e abordagens para falar sobre uma situação tão devastadora, apresentando cenas de hospitais bem como as pessoas que estão fazendo quentinhas para ajudar quem perdeu seu trabalho. Ivana afirma que apesar das dificuldades, os grandes aprendizados vêm dos fotógrafos, guerreiros e guerreiras, que foram para a linha de frente documentar essa situação. Ela cita Raphael Alves, uma pessoa que considera especial pelo seu brilhante projeto documentando a crise gerada pela pandemia em Manaus. Você pode conferir o trabalho de Raphael Alves, que materializou seu projeto aqui na Artisan, aqui.


Com cautela os temas apresentados pelo Everyday Brasil estão se diversificando novamente, sem esquecer que ainda vivemos a pandemia. “A importância do projeto é justamente, num país desse tamanho, a gente dar conta lançar novos olhares sobre os assuntos. Levando para as pessoas novas perspectivas que elas ainda não tinham tido a oportunidade de entrar em contato. Uma ferramenta de gerar reflexão e transformação”. Ivana lembra o Brasil é enorme e não vive apenas de histórias ruins. Há muita narrativa boa que está ganhando o mundo a partir do Everyday Brasil e é aí que mora a grande potência desse projeto.


Foto Antonello Veneri: 2 de fevereiro, Dia de Iemanjá. Salvador, Bahia

Para conhecer mais do Everyday Brasil acesso no Instagram @everydaybrasil ou acesse o site aqui.


Todas as fotografias aqui presentes são de fotógrafos e fotógrafas colaboradores do Everyday Brasil.

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