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Luiz Antônio Simas celebra o carnaval do novo fotolivro de Fabrício Mota

Atualizado: Mar 26


Luiz Antônio Simas é um carioca escritor, professor, historiador e compositor que estuda a cultura de rua do Brasil. Quando “a brasilidade incessantemente produz, das brechas do horror, a beleza e a arte” é o momento em que Simas se deleita. Um apaixonado nato por aquilo que tem de mais autêntico nesse país: carnaval, futebol, samba, terreiros...


Possui mais de quinze obras na sua trajetória. Uma delas, Dicionário de História Social do Samba, foi premiada no 58º Prêmio Jabuti na categoria Teoria/Crítica Literária, Dicionários e Gramáticas. O pensador também foi presente no carnaval carioca, como jurado do Estandarte de Ouro (prêmio do jornal O Globo) e colunista do O Dia, jornal diário do Rio de Janeiro.


Luiz Antônio oferece suas palavras sobre o carnaval carioca no prefácio do novo fotolivro da Artisan Raw Books. No Fundo do Rio é uma obra de Fabrício Mota que explora a folia nos subúrbios do Rio de Janeiro. A obra tem parceria com o coletivo Favela em Pauta e parte dos recursos adquiridos com a venda do livro aqui na Artisan serão doados para o coletivo.


Simas revela que vê nesse fotolivro o que o pensador Walter Benjamin chama de “escovar a história a contrapelo”. Ou seja, na visão de Simas é uma obra que conta histórias que a História não conta, tendo esse mérito de buscar o carnaval a contrapelo. Não o carnaval turístico, do espetáculo, mas o carnaval que se faz por ele mesmo.

O professor ainda lembra que essa folia, que se tornou uma contra narrativa no Rio de Janeiro, é feito por aqueles que conhecem a escassez de recursos, de tempo e de espaço. Mas justamente por causa dessa sabedoria que soluções criativas surgem para que seja possível brincar: “Um carnaval das miudezas”. De forma nenhuma Luiz Antônio romantiza o precário, mas ele vê em No Fundo do Rio uma festa que ainda não foi engolida pelo grande show midiático dos blocos super produzidos e das escolas de samba. O apaixonado pela brasilidade finaliza afirmando que o carnaval é uma instância que vai além da festa. “É construção de sociabilidade, construção de pertencimento a um chão. Uma maneira de exercer cidadania, e cidadania essa de praticar a cidade”. O carnaval revelado no fotolivro de Fabrício é aquele praticado nas brechas, que da a chance do povo praticar a cidade e a vida.


A seguir, confira o prefácio assinado por Luiz Antônio Simas para a obra.

Corpos Suburbanos


Há tempos, escrevendo sobre o Carnaval, ressaltei certa confusão que anda marcando a folia no Rio de Janeiro entre a cultura do evento e o evento da cultura. Por cultura do evento, refiro-me a uma festa cada vez mais esvaziada de sentidos profundos e marcada, basicamente, pelo viés da circulação de capitais e do empreendimento turístico. Por evento da cultura, entendo aquela manifestação dotada de organicidade, que é culminância de experiências de vida, criação de sociabilidades, interação com a rua, prática cotidiana da cidade.


O belíssimo livro com os registros fotográficos que Fabrício Mota fez nos desfiles dos blocos de Carnaval que cruzam a avenida Intendente Magalhães, no coração do subúrbio carioca, nos dias de folia é um testemunho riquíssimo de um evento da cultura. Longe dos holofotes, do glamour dos camarotes, dos desfiles milionários das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro ou dos megablocos da Zona Sul e do Centro que viraram verdadeiras empresas, o que se percebe aqui é a dimensão da festa como redenção e transgressão dos perrengues da vida das pessoas comuns. Corpos domesticados pela lógica do tempo do trabalho, submetidos às normas de disciplina, encaixotados em meios de transporte público degradados, aqui adquirem o protagonismo sobre suas existências, ainda que durante o tempo exíguo dos dias de Momo.


Não conheço sentença sobre o Carnaval mais precisa do que a do mestre Aldir Blanc: “a fantasia é um troço que o cara tira no carnaval e usa nos outros dias”. Falou e disse. Meu ídolo carnavalesco, por isso mesmo, é o folião desconhecido, como vários registrados nas fotografias que seguem. Nos dias de esquecimento, a pessoa tira o disfarce de gari, motorista de ônibus, enfermeira, professor, trabalhadora doméstica, manicure, cozinheira, estivador, e deixa aflorar o pierrô triste, o pirata ébrio improvisado, o imperador romano em andrajos, a baiana, o bate-bola, o malandro Zé Pelintra, a porta-bandeira, o mestre-sala...


O conjunto de fotos que formam este livro afirma algo que, vez por outra, ressalto: o Carnaval é perigoso. O controle dos corpos faz parte de um projeto de desqualificação das camadas historicamente subalternizadas como produtoras de cultura, e se manifesta na constante repressão aos elementos lúdicos e sagrados do cotidiano dos pobres, dos descendentes dos escravizados e de tudo aquilo que resiste ao confinamento do ser. Os corpos que desfilam nos subúrbios cariocas e revivem nos registros de Fabrício Mota gingam e escapam, subindo no salto da passista, a esses projetos de desencanto da existência, afirmando a força incomensurável da vida.


Evoé!

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