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Ô abre alas, o fotógrafo vai passar

Atualizado: Mar 26


O carnaval carioca é um evento mundialmente conhecido. Justamente por isso, atraí todo tipo de olhar, de curiosos ou dos locais que aguardam ansiosamente a nossa “virada do ano” (porque o ano só começa depois do carnaval, claro). O fato é que onde tem foliões, terá um fotógrafo. Mesmo que a festa aconteça anualmente, ela é de uma imensidão cultural e espiritual tão grande que não nos cansamos de registrar e viver esse momento. Todo ano, muitos de nós vamos aos mesmos blocos, e para aqueles que carregam a fotografia como arte e comunicação, todo ano queremos levantar nossas lentes mais uma vez, como estandartes no meio do amontoado. O estandarte que anuncia sua chegada, que em si mesmo já é uma forma de se expressar, que abre alas na multidão.


Mas para além de conseguirmos a proeza de se estreitar entre o povo para fazer nossos registros, ainda temos que lidar com nossa fantasia, nosso glitter, nossa água e nosso copo de cerveja. Afinal, o fotógrafo carioca que se embrenha nos blocos de rua, para além de fotógrafo ele é também folião. Ele também é atravessado pelo transe carnavalesco, a oportunidade de manifestar todo tipo de alegria que foi reprimida por um cotidiano pesado e estreito. Assim, a experiência de fotografar no carnaval, em meio a festa, se torna algo único e viciante.

A verdade é que o rito de fotografar tem tudo a ver com o carnaval. O fotógrafo Arthur Omar em sua obra Antropologia da Face Gloriosa (1997) apresenta retratos que fez em meio à festança de rua. Seu ato que começou despretensioso, acabou virando uma grande pesquisa sobre essas personalidades que registrava. Seu modus operandi era “retirar cada face de seu contexto original, e deixá-la viver por si mesma, com sua carga de ambiguidade e mistério”. O fato é que, quando o fotógrafo separa a imagem de sua identidade inicial, o fotografado, ele abre caminho para sua libertação. Ou seja, a imagem ganha autonomia. Esse seria também a experiência que o carnaval oferece para seus foliões: liberdade para sair de si e viver por si mesmo. Omar ainda diz “Meu objetivo é o registro, sim, a captação de seres humanos num instante extático — o momento em que saem de si e entram em outra realidade. A própria fotografia é outra realidade”.


O detalhe é que, mesmo que o encontro fotógrafo-fotografado tenha levado apenas instantes, essa festa é um momento de tanta explosão do que há dentro de cada um que, uma imagem que congele esse momento, vai congelar também o fenômeno de quando uma única pessoa cresce sua presença de tal maneira que transcende sua forma corpórea: cada um de nós se torna um universo expandido. Ou seja, nossa presença acaba representando o que está acumulado em nós bem como as imagens de mundo que nos atravessam. “Singularidade absoluta, como um universo etnográfico próprio, em expansão para dentro e para fora de si. Um universo povoado por uma só pessoa, ou uma só imagem — a daquela face”, diz Omar.

Acredito que esse seja um dos motivos pelos quais blocos fazem tanto sucesso. Conforme cada um se torna sua versão gigante, cada aura se encontra com outra e mais outra a ponto de virar uma grande Via Láctea de personalidades. O fotógrafo, em meio a tudo isso e também participando disso, leva de encontro seu universo ao do fotografado, como em qualquer processo fotográfico, mas de forma potencializada devido ao êxtase da festa.


Esse carnaval de rua, tão pulsante no Rio de Janeiro, é realmente uma experiência única. Mesmo os fotógrafos que vestem uniformes escrito “imprensa” e vão trabalhar nessa época do ano, no famoso e glamoroso Sambódromo, não fogem da folia rueira (com exceção deste ano de 2021, claro). Afinal, depois de horas registrando aquele povo com fantasias enormes e as celebridades na arquibancada, os fotógrafos (e todos presentes) desembocam no fim da avenida. E o que tem poucos passos depois daquele arco bonito, que marca o fim do campo de visão da TV, é a rua. Ali, poucos passos depois do clarão dos holofotes e do olhar da mídia, acontece uma das maiores festas de carnaval já vista.


Ou seja, até um evento que tem que se pagar para entrar, quando se trata de carnaval, tem a ver com rua, com chão, com o povo. Mesmo que tentem isolar a festa, a aura do carnaval como um todo, assim como as dos foliões, é enorme. Ela jorra para fora dos camarotes chiques do Sambódromo, invade a Sapucaí até chegar à Presidente Vargas. Onde, por sinal, fica a concentração das escolas de samba antes de desfilarem, e possui arquibancadas liberadas para o povo sentar-se e torcer pela sua escola antes dela passar pelos olhares do júri. Antes e depois do “pega pra capar” vemos o carnaval suado, mas fervoroso. O fotógrafo que quiser fugir das imagens de lugar comum vai achar nessas ruas alguns dos foliões mais apaixonados, sentados na calçada, em pé durante horas em cima de carros alegóricos ou na espera ansiosa de ver sua escola do coração. E fotografar tudo isso é uma proeza tão complexa quanto o carnaval em si.

As fotografias aqui presentes são do fotolivro No Fundo do Rio de Fabrício Mota. A obra realizada pela Artisan Raw Books explora o carnaval de rua carioca, principalmente em áreas periféricas. No Fundo do Rio está disponível em nossa loja. Confira aqui.