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  • Artisan Raw Books

O que os livros têm a nos dizer sobre a fotografia

Sobre as conexões entre a fotografia documental e os livros fotográficos.


Por Bruna Sanjar Mazzilli*

Fotolivro Artisan De-Verso de Zeca Coelho

Em 2004, quando o meio fotográfico recebeu o primeiro volume da série The

Photobook: A History, dos ingleses Martin Parr e Gerry Badger, as publicações

fotográficas viram seu universo se expandir de uma forma nunca antes vista. E apesar

das várias controvérsias e limitações que pairam sobre esse emblemático projeto, o fato

é que ele colocou em evidência a força de pensar a fotografia a partir dos livros

fotográficos – ou dos “fotolivros”, como pontuam seus autores. Isso não quer dizer

apenas acompanhar, pelos livros, a trajetória da fotografia e suas transformações, mas

entender o livro como suporte ativo nesse percurso, isto é, como um objeto dotado de

especificidades – estruturais, materiais, midiáticas – que também influenciam a própria

trajetória da fotografia e atuam nessa cadeia de transformações. Considerando que a

fotografia se associa aos livros desde seu próprio surgimento, em meados do século

XIX, partir dessa associação prova-se uma estratégia bastante enriquecedora, pois

permite acessar sentidos e relações mais complexas na prática fotográfica ao longo de

sua história, ajudando-nos, por isso, a situá-la também no cenário atual, o cenário dos

“fotolivros”.


Essa estratégia é especialmente útil quando pensamos na constituição e nas

transformações da modalidade documental, que também acompanha a fotografia desde

o princípio e está propriamente na base de sua associação com os livros. Afinal, quando

surge, a fotografia tem como principal função satisfazer o desejo moderno de

documentar e catalogar objetivamente o real, desejo esse que só se concretiza de fato

quando as imagens fotográficas, esses “fragmentos de realidade”, são reunidas e

ordenadas numa estrutura única: o álbum ou livro. Essa aliança se mostrou tão profícua

que acabou se mantendo ao longo dos anos, mesmo com novas formas – mais massivas

e eficazes – de registrar e ordenar visualmente o mundo, como a imprensa e a televisão;

o que ocorreu, porém, foi uma contínua adaptação no modo como fotografia e livro se

associam, respondendo tanto às transformações do próprio meio fotográfico como às

influências do campo da arte e da comunicação.


A imprensa ilustrada do século passado, por exemplo, foi particularmente

importante nesse processo porque deu as condições, por um lado, para que o “estilo

documental”, com seus códigos e práticas, se estabelecesse e se desenvolvesse: as

tomadas diretas, os instantâneos, as imagens únicas e condensadas, o uso do preto e

branco, a construção de reportagens (histórias) visuais – todos esses foram recursos

usados para assegurar o “efeito-verdade” das imagens e dar forma ao fotojornalismo

moderno. Em particular, a estrutura dos ensaios e fotorreportagens, com formas

narrativas que se associam a textos verbais e outros elementos gráficos e exploram o

espaço das páginas das revistas, foi essencial para que muitos fotógrafos documentais

do período desenvolvessem seus próprios projetos pessoais dentro dos livros. Por outro

lado, foi também na imprensa que a modalidade documental começou a se afastar da

prática fotojornalística – cada vez mais atrelada à “realidade dura” e ao modelo

espetacular e efêmero da televisão – e investir em formas mais autorais, expressivas e

conscientes de imagem, efetivamente migrando para os livros e espaços expositivos – o

que Margarita Ledo chamou de “documentalismo fotográfico” e André Rouillé, de

“fotografia-expressão”.

Fotolivro Artisan Arapaima de Bruno Kelly

Por sua vez, os movimentos artísticos que atravessaram o século XX (desde as

vanguardas até a arte conceitual, nos anos 1960) deram à fotografia um ar mais

experimental e dinâmico, explorando criativamente sua visualidade e a própria relação

que estabelecia com seus suportes, inclusive com os livros. Aqui são considerados

fatores como a materialidade e o caráter sequencial das páginas, o modo como uma

imagem se liga à outra e estabelece conexões com as demais, a articulação entre os

vários elementos gráficos (tipografia, textos, fotografias, ilustrações) – ou seja, o livro é

entendido e utilizado aqui como plena forma significante. É nesse cenário, aliás, que

encontramos as raízes da atual concepção de “fotolivro”: um livro fotográfico que

assume o aspecto material e sequencial do suporte para construir uma visualidade una e

coesa, quer associe fotografias a outros elementos ou não. Em outras palavras, uma

união cooperativa entre imagem fotográfica, design e edição.


O que o fotolivro sugere, portanto, é um uso mais consciente do suporte “livro” por

seus produtores, renovando o caráter de unidade e ordem que está presente desde os

primeiros álbuns e livros fotográficos e que agora ganha uma dimensão mais livre e

criativa. Nesse sentido, a fotografia documental continua aproveitando a eficiente

estrutura do livro para organizar e construir seus pensamentos visuais, mas sem se

prender à rigidez e aos parâmetros pretensamente neutros e objetivos do documento

moderno. A consciência do suporte alia-se, então, à própria consciência adquirida por

essa modalidade fotográfica, dando vazão a formas mais subjetivas, críticas e

expressivas do documental dentro dos livros, que agora podem ser efetivamente

declarados e explorados não como espaços de “verdade”, mas de “ficção” – uma “ficção

documental”, diria Joan Fontcuberta –, de criatividade consciente; espaços, enfim, de

complexidade e potência.

Fotolivro Artisan Tonle Sap de Gonçalo Pinheiro

Não à toa esse suporte continua sendo tão procurado por fotógrafos ligados à prática

documental, mesmo em meio a tantas outras ofertas midiáticas, inclusive digitais.

Afinal, comparados a jornais, revistas ou mesmo portais de notícias, livros continuam

oferecendo um grau de autonomia e de liberdade criativa que raramente é visto nessas

mídias, quase sempre presas a linhas editoriais fixas, espaços restritos e curtos tempos

de produção. Além disso, o próprio fato de estarmos falando de um suporte físico – em

contraste com a virtualidade e efemeridade do meio digital – é uma questão a ser

considerada, já que o aspecto material do livro garante uma presença e uma longevidade

que o legitimam e lhe permitem circular por várias gerações e lugares distintos.


É na conjunção de todos esses aspectos que a associação entre livro e fotografia

documental se mantém forte até hoje. Reconhecer a força desse vínculo é reconhecer a

força das publicações fotográficas como campo de estudo e atuação; é reconhecer o

livro não só como testemunha, mas como protagonista da trajetória fotográfica, como

forma significante de sua produção. Nessas circunstâncias, o fotolivro é aquele que

atualiza e reforça esse vínculo no momento contemporâneo, propondo um uso mais

consciente do suporte e oferecendo, com isso, um espaço mais criativo, livre e potente

para a fotografia documental. No fotolivro, como diria Rouillé, o “documento” vira,

enfim, “expressão”.

Fotolivro Artisan Natureza Minha de Silmara Luz

Este texto é baseado na dissertação de mestrado defendida pela autora em dezembro

de 2020 sob o título O fotolivro como espaço de complexidade e potência para a

fotografia documental. O trabalho pode ser acessado aqui!



* Bruna Sanjar Mazzilli é uma paulistana de 29 anos formada em Editoração pela

Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. O gosto pelos livros e pela fotografia a acompanha desde a adolescência, mas foi só durante a faculdade que essas duas coisas começaram a se aproximar uma da outra e a levaram a querer estudar fotolivros, já no mestrado. Embora tenha um pé no mundo acadêmico, prefere se ver como uma amadora dos livros e da fotografia.

Não deixe de conferir seu trabalho na íntegra aqui.



Todos os fotolivros aqui presentes estão disponíveis em nossa loja.