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Retratando seu avô, Enrique Espinosa converge duas gerações artísticas em seu primeiro fotolivro.

Um Enrique conhecendo o outro. Conheça seu fotolivro aqui.



Interessado pela vida e curioso pelas histórias, Enrique Espinosa, paulistano, 25 anos é graduado em comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e transita entre os universos criativos do teatro e da fotografia. Em quem me ensinou a nadar, sua primeira publicação resultado de seu trabalho de conclusão de curso, constrói junto com seu avô uma obra verbo-visual íntima e geracional em respeito ao tempo das coisas.


O artista se auto intitula um colecionador. Desde criança colecionava folhas, pedras, figurinhas, carrinhos... Sentindo assim que guardava com ele pequenos pedacinhos de quem ele era e do que fazia. Essa paixão pelos vestígios de sua existência tomaram uma grande proporção em sua vida, culminando na prática da fotografia e o transformando num colecionador de encontros, de pessoas e de histórias. Foi desse modo de olhar a vida que o seu projeto nasceu. Inspirado também pelo livro Catálogo de Perdas de seu orientador João Anzanello Carrascoza e Juliana Monteiro Carrascoza, o fotógrafo decidiu fazer um fotolivro. Juntou retratos de seu avô, também Enrique Espinosa, unidos a vestígios verbais de reflexões feitas pelo retratado nessa grande intenção de colecionar memórias e fazer com que elas se perpetuem. Em seu trabalho de conclusão de curso na USP, o artista junto com seu orientador deu o primeiro formato ao projeto e mais tarde, em parceria com a Artisan Raw Books, quem me ensinou a nadar “deixou de ser só um projeto e ganhou corpo nesse mundo”.

No processo de retratar seu avô, a relação dos dois se transformou. O retratista frisa que não mudou, pois ela não passou a ser algo que não era antes. Mas a partir de percepções sutis, ele notou que a troca crua e honesta entre eles os fizeram repensar sua vivência. Por isso, ele passou a ver seu avô de forma potencializada. Enrique passou a conhecer o outro Enrique como ser humano, antes mesmo de como avô. Ele acredita que essa é a maior beleza da arte, como a partir dela é possível ver as pessoas como quem elas são, e afirma que ter construído essa visão de seu avô a partir de um processo amoroso e horizontal é um de seus maiores presentes. Apesar da pandemia ter sido um percalço, afinal eles não podiam ter qualquer contato físico antes ou depois das sessões de foto, o artista afirma que ver o projeto acontecendo foi “o maior abraço que eu e ele poderíamos pedir”.


E foram nessas conversas e conexões que o Enrique neto descobriu que o Enrique avô além de ser um artista das mãos, pintando e esculpindo, também produzia fotografias. Ele recordou que quando criança via seu avô com uma pequena câmera analógica nas mãos, mas não sabia que fotografava desde jovem, quando tinha a mesma idade que o artista tem hoje. Descobriu então registros belíssimos, muitos retratos da musa inspiradora, sua avó, e dos lugares que ela e seu marido passaram juntos. O retratista afirma que o mais potente de todo processo foi como ele e o avô enxergaram um ao outro como artistas. Se não fosse pelo seu projeto, talvez a relação familiar não teria os levado por esses caminhos, mas foi por causa dela que essa possibilidade se abriu. Afinal, o fotógrafo lembra que não poderia ter pedido por um modelo melhor pois, apesar de ser a primeira vez que era retratado de forma tão profunda, seu avô se mostrava sempre disponível e aberto para o processo do artista. Enrique diz que fotografa usando de jogos lúdicos e de propostas de imersão, que herda de sua experiência no teatro, e seu avô embarcava nas atmosferas de forma criativa e mágica.

O trabalho de conclusão de curso então foi uma chance que o artista viu de saciar sua vontade de fazer arte e de dar vida a esse projeto mesmo em uma faculdade de cunho mais teórico. Enrique descobriu que seu trabalho abriu passagem para que ele trocasse com outros artistas além de seu avô, como seu orientador e o profissional que revelou seus negativos. Assim, ele se sentiu um alinhamento interno com seu querer artístico após ter passado por períodos de dúvida sobre a escolha de seu curso na USP, e isso possibilitou que também alinhasse as condições para a realização de sua meta. “As pessoas foram aparecendo, e editora apareceu (...). As coisas se encaixaram naturalmente, tudo muito fluído e honesto e por isso não poderia ter sido diferente do que foi”. O fotógrafo, que não conhecia nada sobre o processo de publicação de um fotolivro, conheceu a Artisan por acaso, mas no momento certo. Enrique explica que a troca entre ele e nossos editores foi importante pois ele sentiu seu momento de criação, potente e sensível, respeitado e guiado de forma aberta e enriquecedora.


A parte teórica de sua pesquisa foi, entre outras coisas, sobre a importância da materialização da fotografia, principalmente no momento de grande volume imagético digital que estamos. O artista diz que ao tornar o processo fotográfico físico, ele impacta as pessoas de forma diferente. Enrique deixa como recado para outros jovens fotógrafos: “Materializem o trabalho de vocês, tornem ele físico. Concluam o processo de criação artística materializando o que vocês produziram. Acho que isso foi o mais potente de fazer um fotolivro, o simples fato de tornar material”. Apesar do artista também achar o ambiente digital importante para sociedade que vivemos hoje, ele frisa esse seu pensamento afirmando que o físico tem algo maior, uma outra importância para quem faz e para quem recebe e suas imagens conversam de uma outra maneira pelo fato de serem tocáveis.


O artista conta sobre suas memórias visuais que buscou para a construção de suas fotografias, como poses e gestos que viu seu avô fazer a vida inteira. “Jeitos de coçar o rosto ou apoiar a mão na cintura que são dele e eu queria trazer isso de verdade”. Ele lembra também da inspiração Annie Leibovitz e diz que admira muito seus retratos pela verdade que ela consegue extrair. Existe a teoria de que é quase impossível fazer uma fotografia de quem a pessoa é, uma vez que existem muitos imaginários envolvidos nesse processo, como o que o fotógrafo pensa da pessoa, o que o próprio retratado acredita ser e por aí em diante, lembra Enrique. Mas ele afirma que é possível balancear muito bem esses imaginários, como Annie demostra, e foi isso que o artista buscou fazer, se aproximando de uma simplicidade da essência mas sem estagnar o processo criativo atrás de uma pose perfeita.

Com o fotolivro pronto ele o apresentou para seu avô. O retratista afirma ter sido extremamente emocionante pois se achou dando um atestado de missão cumprida ao retratado. Enrique diz sentir que os genitores muitas vezes se sentem em débito com os filhos ou netos, sempre querendo fazer mais. Porém, com sua obra pronta, ele afirma para seu avô que seu compromisso foi concluído pois ele amou, inspirou, criou e com 85 anos modelou. Enrique avô também foi tomado pelas emoções, principalmente quando releu os manuscritos de conversas que teve com o neto que estão no livro. O fotógrafo disse que foi muito bonito ver seu avô se emocionando com o texto que ele mesmo disse e escreveu. Assim, esse seria um outro grande presente que esse projeto trouxe além do reconhecimento do avô para com ele como artista.


O artista finaliza afirmando que “todo processo artístico é intenso”, fisicamente e emocionalmente, uma vez que se mexe com sonhos, verdades e humanidade. Então seus maiores aprendizados com sua obra quem me ensinou a nadar foram de dar valor aos seus projetos, dando significado bem como respeitando o tempo das coisas. Enrique diz que vivemos numa sociedade imediatista, então se algo não acontece no instante não vale a pena esperar. Mas ele descobriu que vale. Seu projeto veio primeiramente a sua mente em 2018 e em 2021 ele colhe os seus frutos com uma sensação de satisfação. Por isso, diz que valorizar a lentidão da vida moldou sua arte e sua existência daqui para frente. Além disso, seu outro grande aprendizado foi a valorização do coletivo na produção artística. “Vivemos cada vez mais um sentimento individualista, não nos escutamos, não ouvimos e não conversamos. Poder trocar com tantos artistas incríveis me mostrou como a obra pode ser potencializada se fizermos em nome da obra (...). A equipe que se construiu para poder fazer esse projeto acontecer, eu confio de olhos fechados, pois todos estavam fazendo em nome da obra e não para engrandecer um nome próprio. Agora ela tem uma existência própria”.

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