Buscar

Entrevista com Raphael Alves na linha de frente da pandemia em Manaus

Atualizado: Jan 25

Fotógrafo vence o concurso POY Latam 2021 com o projeto Insulae, uma imersão na crise da Covid-19 na Amazônia.

Ruas vazias, isolamento, lojas comerciais fechadas, falta de oxigênio. O Amazonas, assim como outros estados e países, segue sendo atingido pelo novo coronavírus. Entrevistamos o fotojornalista Raphael Alves que está cobrindo a crise da Covid-19 no Amazonas desde o início da pandemia. Seu projeto Insulae conta com imagens que marcam um momento histórico vivenciado pela sociedade manauara.


Raphael Alves é um fotógrafo amazonense que está se dedicando desde o princípio da pandemia, quando ainda se tinha poucas informações sobre o vírus, a documentar todos os espectros que envolvem viver a Covid-19. Os cuidados básicos, a logística de se lidar com uma doença altamente contagiosa e principalmente o lado humano da empatia e o combate à desinformação. O fotógrafo conta que seu ímpeto de começar a documentar foi uma reação imediata à forma como ele se sentiu vivendo a pandemia no Amazonas, um estado que já vivia à beira de um colapso antes mesmo da Covid-19 assolar o país. “Foi durante uma situação de emergência que as desigualdades socioeconômicas e a falta de políticas que pensem as peculiaridades da região evidenciaram a estrutura frágil do maior estado da federação”.


Ao começar a fotografar o documentarista procurava se expressar e cobrir pautas de agências jornalísticas com as quais colabora, mas afirma que não arquitetava uma forma específica para seu projeto. Conforme foi lendo e compreendendo a pandemia, tudo foi ganhando corpo e em junho de 2020 nasceu seu primeiro fotolivro: Insulae foi publicado aqui na Artisan Raw Books em uma edição limitada que esgotou em apenas uma semana (uma nova edição já está à venda aqui na Artisan). Uma obra que escancara a crise vivida no Amazonas, mostrando as dores de famílias separadas, das milhares de vidas perdidas e dos povos nativos sob ameaça. (Compre aqui).


Raphael recebeu o prêmio POY Latam 2021, um dos maiores prêmios do fotojornalismo ibero-americano, pela sua cobertura da Covid-19. “A pandemia e o descaso cobraram um preço altíssimo: vidas. Milhares delas, agora, enterradas no isolado território amazonense”. O artista espera que essa gratificação direcione os olhares do Brasil para a região norte, que historicamente é abandonada pela grande mídia mesmo em crises anteriores ao vírus. O amazonense afirma que seu projeto é sobre o colapso vivido no momento, mas que este não é resultado apenas da doença e sim de décadas de prioridades equivocadas das autoridades. As instituições que têm o papel de fiscalizar e legislar sobre áreas como da saúde e saneamento básico falham no Amazonas e o resultado disso é a falta até de água para lavar as mãos em algumas partes do estado. Por isso, o documentarista acredita que essa tragédia vem se desenhando na região há mais tempo do que a duração da pandemia.


Exposto aos riscos, o artista mostra que foi fundamental o apoio familiar para que conseguisse lidar com a fadiga e as emoções. O sentimento de estar fazendo algo pelas pessoas, além de conscientizar a família do trabalho da mídia movia o fotógrafo a sair todos os dias e lidar com os perigos de estar na linha de frente da cobertura de uma crise sanitária. Ao abordar outras famílias que estão registradas em seu trabalho, o artista trabalhava com acolhimento. Ele conhece e compartilha da dor uma vez que também teve perdas no seu núcleo familiar para a Covid-19, e afirma que o mais doloroso era ver como pessoas em situações delicadas o recebiam muito bem por depositarem uma esperança no trabalho da imprensa.

Mais adiante, Raphael deseja fazer uma nova e mais completa publicação aqui na Artisan Raw Books de sua cobertura, englobando os meses de menos casos da doença com o “novo normal”, passando pela segunda onda e vacinação, até chegar ao controle da Covid-19. Ele acredita que é um meio para que essa vivência fique registrada e que os mesmos erros não sejam repetidos nem num futuro próximo, em outras regiões do Brasil, nem em qualquer situação posterior.


Sua mensagem final é a de valorizar o trabalho daqueles que estão inseridos no contexto da região, nesse caso, amazonense. O fotógrafo que vive dentro da situação, que conhece a cultura, os códigos, os saberes e tradições merece ter a voz valorizada. Apesar de profissionais de todos os cantos serem bem-vindos ao Amazonas, muitos vão para esse ambiente com ideias pré-concebidas, e as reproduzem, caindo em estereótipos: “as imagens não estão no mundo, estão dentro de nós”, lembra.


O documentarista entende que esse é um olhar histórico vindo de colonizadores que chegavam ao Amazonas e iam atrás daquilo que iria satisfazer o seu fetiche de descobrir uma mitologia fantasiosa, com “animais exóticos”, “construções fantásticas” e tantas outras histórias que eles procuravam viver a partir dos povos originários. Na sua concepção, a colonização continua acontecendo no Brasil e na região amazônica. No mundo da fotografia ela muitas vezes produz fotógrafos que vão para um lugar com uma imagem já planejada e se dão por satisfeitos quando a conseguem, sem se inserirem e mergulharem na situação que retratam.


O processo de aculturação colonizadora então pode e deve, nas palavras de Raphael, ser combatido com a valorização de olhares regionais que abraçam a cultura local. Uma exaltação da identidade, ainda mais se tratando do Amazonas, um estado que possui forte ligação com os povos indígenas. Essa é sua esperança para futuros olhares que se voltem para a região, que necessita de uma atenção cuidadosa e imediata, na pandemia ou depois dela.


Compre o livro Insulae, do Raphael Alves aqui.


Deixamos a seguir informações de como ajudar o Amazonas a enfrentar esse momento de tanta dor. Uma iniciativa Associação Amazonense do Ministério Público, CONAMP, ANPT e Associação Nacional dos Procuradores da República.

Pix: CNPJ 04.432.837/0001-60 Banco Itaú Agência: 0071 C/C 41272-0