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Silmara Luz traduz em suas flores os ciclos de vida da mulher contemporânea

Confira o fotolivro Natureza Minha de Silmara Luz aqui.


Silmara Luz é uma fotógrafa e professora paulista nascida em 1971, atualmente reside na zona sul da cidade de São Paulo, onde trabalha e estuda.

Recebeu a fotografia de herança familiar e fotografa desde quando ganhou sua Tira-Teima. Com graduação na área de Educação, tem mestrado e doutorado na área de Saúde pela Universidade de São Paulo, é técnica em Processos Fotográficos pelo SENAC/SP e em Turismo pela ETEC/SP. Seu principal interesse são nas questões sociais e antropológicas da fotografia, bem como ambientais e culturais. Desenvolve roteiros fotográficos por São Paulo pela Kultura Fotográfica onde busca unir toda sua formação em educação, saúde, lazer e cultura.



O projeto Natureza Minha durou por volta de 10 anos. Como ele começou? E como e quando você soube que ele estava completo?


Em 2008, voltei a estudar fotografia e, ainda com filme 35mm PB, fiz um estudo com flores usando um conjunto de lentes close-ups. Em pouco tempo, e a contragosto, fui convencida a usar uma câmera digital e com ela continuei os estudos com as flores. Adorei o exercício. Então guardei esse material pensando em algum dia revisitá-lo quando tivesse mais segurança com o aprendizado no digital. Já a escrita, sempre tive como hábito fazer diários. Além de terapêutico, era também uma forma de expressão importante. Quando houve a mudança de rotina imposta pela pandemia em 2020, enxerguei como a pausa que eu precisava para rever as fotos. Acabei encontrando também os textos que fiz na mesma época. E foi um déjà vu. Porque os questionamentos, os perrengues, inquietudes estavam todos aqui de novo, na mesma intensidade e eu já havia falado deles lá atrás! Era o Eterno Retorno do Nietzsche me pegando pelos calcanhares bem no momento que eu completaria 50 anos, no meio de um surto mundial de ignorância e de um vírus. Daí não foi difícil ligar a beleza efêmera, a delicadeza e suavidade das flores que eu tinha registrado às porradas que eu estava levando de novo da vida. Eu e o mundo. Colocar tudo isso num único trabalho foi só o desejo de tornar esse peso todo um pouco mais suportável. Funcionou para mim.



Os textos nasceram durante o processo de fazer as imagens ou vieram depois conforme você viu o resultado das fotografias?


Como eu sempre tive o hábito de escrever, os textos aconteciam em paralelo. À época eu não via uma relação explícita entre o que fotografava e o que escrevia. Eu sabia que havia algo em comum porque os sentimentos nas duas atividades eram muito semelhantes. Eventualmente, usava uma imagem e um texto juntos, mas nada pensado. Só consegui fazer essa conexão de maneira elaborada agora com tudo que estamos vivendo e com todo o aprendizado na fotografia. Foi uma construção.


Conte um pouco sobre a profunda relação entre as flores e as fases da sua vida.


Acho que eu nunca tive muito a dimensão das fases da minha vida. Sempre acreditei que o tempo é construído e revisto a todo momento. Mas observar o espetáculo do ciclo de vida curtinho das flores bem no meio dos meus 50 anos foi a hora de entender que o tempo tá aí e não espera. A vida é bela, cheia de senões e uma hora finda. E a pandemia ainda veio para me provar que somos mais frágeis que qualquer uma das flores que fotografei.



Que aprendizados e experiências marcantes esse projeto trouxe para você ao longo dos anos? O que mudou em você desde o início de Natureza Minha até agora?


Não sei se mudei em função do projeto. Ele é fruto de uma reflexão constante que faço justamente para não ser sempre a mesma. Para me reinventar e aproveitar da melhor forma o tempo que eu ainda tenho e com o que a vida me traz. Mas conseguir reunir o material, pensar sobre ele, buscar referências, ter coragem para enviar para a editora e aprender sobre esse processo junto ao meu editor foi de fato um aprendizado muito bacana e prazeroso.


O que você espera comunicar ao público agora que seu projeto está materializado?


Também não havia pensado sobre isso enquanto construía o trabalho. Fiz esse projeto para mim e para expressar tudo o que eu desejava. Mas quando saiu, que precisei escrever sobre ele, só consegui desejar que a delicadeza das flores e minha acidez nos textos levassem um pouco de cor para quem abrisse o livro em meio a essa loucura que estamos vivendo.



Qual foi a sua motivação para transformar o Natureza Minha em um fotolivro? Esse era o plano desde o início do projeto ou foi uma ideia que surgiu depois?


Não, eu não imaginava um livro. O material estava guardado e eu sempre lembrava que desejava fazer algo com aquilo. Tanto as fotos quanto os textos. Eu uso as redes sociais como um laboratório para as ideias. E gostei muito quando os textos e fotos resolviam minha dificuldade com as narrativas visuais, por exemplo. Os textos não cumprem o papel de narrar, mas gosto da conversa entre texto e imagem de maneira metafórica, brincando com a semântica e a sintaxe, sem linearidade. É assim que eu tento minhas narrativas: o mais sintético possível. Quando entendi isso, achei que podia arriscar um fotolivro.


Que conselho você daria para mulheres fotógrafas contemporâneas que desejam transformar suas vivências em uma arte para si e para o mundo?


Vou contar o que deu certo para mim. Ouvir conselhos feministas. Estudar. Criar e aprender como apresentar. Procurar parcerias que nos respeitem, saibam ouvir o que dizemos e dialoguem. Escutar e ponderar. E jamais permanecer onde não é possível tudo isso.

O fotolivro Natureza Minha de Silmara Luz está disponível aqui.