Alberto César Araújo - #REFrisch, 2020

Alberto César Araújo - #REFrisch, 2020

 

A releitura da obra de Christoph Albert Frisch, fotógrafo alemão, foi tema de minha dissertação de mestrado, defendida em 2018 no PPGLA da Universidade do Estado do Amazonas – UEA. Frisch, entre os anos de 1867 e 1868, realizou uma expedição pelo rio Solimões, no Amazonas trafegando de barco da cidade de Letícia, na Colômbia, até Manaus. Passou e parou nos municípios de Tabatinga, Benjamin Constant, São Paulo de Olivença, Tonantins, Fonte Boa, Tefé, Coari, Codajás e Anori, fotografando o que lhe chamava a atenção.

 

A visualização mental da imagem de Frisch – em sua canoa-laboratório-casa, acompanhado de indígenas e ribeirinhos que, a remo, fizeram este percurso com ele – me perseguiu por décadas. Esse fotógrafo havia marcado, para sempre, a iconografia da Amazônia, com os primeiros registros fotográficos dos indígenas em seu habitat. Para conseguir esse feito, o fotógrafo precisou recriar um estúdio a céu aberto, usando um artifício para vencer as limitações técnicas da época.

Frisch retratava os indígenas com um pano de fundo neutro e a paisagem que os cercava na mesma chapa de vidro. Depois, ao retocar as imagens, apagava as imperfeições e, nesta dupla exposição, dava a ilusão de que eles estavam ali, no mesmo tempo e espaço. Era um trabalho muito elaborado para conseguir o que hoje os programas de edição de fotografia fazem com apenas alguns comandos e certa habilidade do fotógrafo.

 

Partimos do princípio de que, com este recurso utilizado, Frisch pode ser considerado um precursor da Fotografia Contemporânea, mesmo que pareça anacrônico. Mas ali já estavam presentes certas estratégias que a contemporaneidade toma para si, como: a encenação, o uso da dupla exposição, a fabulação para criar suas narrativas, entre outras.

Revi meus arquivos para recriar uma narrativa inspirada pela obra do fotógrafo alemão. Estive por várias vezes nos municípios que fizeram parte do roteiro de Frisch, fazendo coberturas jornalísticas, acompanhando obras públicas, ou em documentação para o Terceiro Setor. Foram muitos anos de viagens, imaginando aquele contexto em (outros) tempos passados.

 

A intenção aqui neste livro é abarcar algumas estratégias da Fotografia Contemporânea, e por que não dizer do Modernismo, no caso da busca por uma fotografia mais pictórica. Assim, fui mergulhando neste acervo, remando pelas águas ruidosas e incorporando os "erros" às imagens, como parte desta (RE) construção imagética. Então, produzi minhas colagens: usei o flash como recurso estético, fiz duplas exposições e exposições com ISO inimagináveis, utilizando janelas e cortinas como filtros.

 

Errando e acertando, busquei uma memória ancestral do meu passado caboclo, nordestino, indígena, nessa parte da população, que está presente na formação do amazônida. É uma população que estava ali, no seu território, no seu lugar, tantas vezes descrita e fotografada por viajantes, ora idílica, ora verde-infernal. Mas para nós, era simplesmente o nosso lar.

 

Com um recorte entre o retrato e a paisagem, eu quis refazer este caminho de uma forma poética, que não remetesse diretamente à questão temporal e da fácil analogia dos contrastes entre o antigo e atual, entre o analógico e o digital. Eu queria, sim, acrescentar camadas, questionamentos e não dar respostas prontas. Busco refletir sobre a representação do indígena na fotografia contemporânea, assim como a representação e a (RE) apresentação dos fotógrafos locais como contribuição à iconografia da Amazônia.

 

A ideia inicial era fazer uma obra dialógica, com a participação dos indígenas, num trabalho coletivo que seria feito em uma nova viagem de Letícia a Manaus. Infelizmente, por inúmeros fatores, não foi possível concretizar esse projeto e tive que, inúmeras vezes, mudar minha pesquisa. Neste sentido, oficinas de fotografia foram feitas na comunidade Parque das Tribos, no bairro do Tarumã, em Manaus, que é o mesmo bairro que Frisch fotografou no ano de 1867.

 

Parte das imagens que compõem este livro foram feitas na referida comunidade, onde moram cerca de 1500 indígenas de 32 povos indígenas. Hoje, eles estão sendo afetados pela pandemia da covid-19, ao mesmo tempo em que estão super conectados com as novas tecnologias e muito ativos nas redes sociais. Eles fazem parte desta era da imagem compartilhada e da pós-fotografia. É a eles e aos demais povos indígenas, que eu amo, a quem dedico este trabalho.

 

Alberto César Araújo, Manaus, 2020

 

Tiragem limitada 30 cópias

 

28 páginas

 

15 cm x 20 cm

 

Colorido

 

Primeira impressão

Alberto César Araújo - #REFrisch, 2020

REF: ACL
R$ 60,00Preço

    © 2020

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