Prefácio de Luiz Antônio Simas

 

Corpos Suburbanos 

 

Há tempos, escrevendo sobre o Carnaval, ressaltei certa confusão que anda marcando a folia no Rio de Janeiro entre a cultura do evento e o evento da cultura. Por cultura do evento, refiro-me a uma festa cada vez mais esvaziada de sentidos profundos e marcada, basicamente, pelo viés da circulação de capitais e do empreendimento turístico. Por evento da cultura, entendo aquela manifestação dotada de organicidade, que é culminância de experiências de vida, criação de sociabilidades, interação com a rua, prática cotidiana da cidade. 

 

O belíssimo livro com os registros fotográficos que Fabrício Mota fez nos desfiles dos blocos de Carnaval que cruzam a avenida Intendente Magalhães, no coração do subúrbio carioca, nos dias de folia é um testemunho riquíssimo de um evento da cultura. Longe dos holofotes, do glamour dos camarotes, dos desfiles milionários das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro ou dos megablocos da Zona Sul e do Centro que viraram verdadeiras empresas, o que se percebe aqui é a dimensão da festa como redenção e transgressão dos perrengues da vida das pessoas comuns. Corpos domesticados pela lógica do tempo do trabalho, submetidos às normas de disciplina, encaixotados em meios de transporte público degradados, aqui adquirem o protagonismo sobre suas existências, ainda que durante o tempo exíguo dos dias de Momo. 

 

Não conheço sentença sobre o Carnaval mais precisa do que a do mestre Aldir Blanc: “a fantasia é um troço que o cara tira no carnaval e usa nos outros dias”. Falou e disse. Meu ídolo carnavalesco, por isso mesmo, é o folião desconhecido, como vários registrados nas fotografias que seguem. Nos dias de esquecimento, a pessoa tira o disfarce de gari, motorista de ônibus, enfermeira, professor, trabalhadora doméstica, manicure, cozinheira, estivador, e deixa aflorar o pierrô triste, o pirata ébrio improvisado, o imperador romano em andrajos, a baiana, o bate-bola, o malandro Zé Pelintra, a porta-bandeira, o mestre-sala...

 

O conjunto de fotos que formam este livro afirma algo que, vez por outra, ressalto: o Carnaval é perigoso. O controle dos corpos faz parte de um projeto de desqualificação das camadas historicamente subalternizadas como produtoras de cultura, e se manifesta na constante repressão aos elementos lúdicos e sagrados do cotidiano dos pobres, dos descendentes dos escravizados e de tudo aquilo que resiste ao confinamento do ser. Os corpos que desfilam nos subúrbios cariocas e revivem nos registros de Fabrício Mota gingam e escapam, subindo no salto da passista, a esses projetos de desencanto da existência, afirmando a força incomensurável da vida. 

 

Evoé! 

 

Primeira Impressão

 

Colorido

 

Tiragem: 50 cópias

 

132 páginas

 

Capa: Couchê 300g

 

Miolo: Couchê 115g

No Fundo do Rio, Fabrício Mota

REF: LFM
R$ 100,00Preço

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