Sertão da Vossoroca - Aurélio Peluso, 2020

Sertão da Vossoroca - Aurélio Peluso, 2020

 

Com a epígrafe, Aurélio colecionou registros da Represa da Vossoroca, que passou a mostrar-nos entranhas e seus mais profundos esqueletos: pontes submersas há muito, sapatos, bonecas e pneus. Em chiaroscuro, preto e branco, lá estão as poças lamacentas onde antes havia água abundante.

 

O livro oferece o retrato de 2020 – o ano que não aconteceu -, com suas mazelas acumuladas em camadas sobrepostas. Um período escrito com tintas do realismo fantástico da tradição sul-americana: há de tudo, da grande peste à nuvem bíblica de gafanhotos, dissuadida de nos alcançar como destino, por inédito e destrutivo “ciclone bomba”. 

 

Equipara-se o bonito livro às fotos da passagem do Zeppelin Hinderburg, dirigível que sobrevoou a Catedral de Curitiba, em 1936; do “dia da neve” em 1975, cobrindo os canteiros da Praça Santos Andrade; ou da missa no Centro Cívico rezada há 40 anos pelo Papa João Paulo II, para o milhão de pessoas presentes. 

 

Tratam-se de registros de seca estarrecedora, acometendo uma cidade em que os invernos são conhecidos por paredes que choram a umidade de dias frios e chuvosos. O cenário árido empresta de Eça de Queirós a frase “não há nada de novo sob o sol”, mas igualmente remete às fotos dos devotos de Antônio Conselheiro, lutando até que dizimados como descreveu Euclides da Cunha em Os Sertões. À narrativa de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha; às fotos e filme, também em preto e branco, feitas por Benjamin Abrahão do Bando de Lampião, e para referência contemporânea, o recurso da direção de fotografia do filme Roma, de Alfonso Cuarón. 

 

Aurélio domina a sutil técnica e demonstra ciência de que o drama ganha potência, quando aplicado às fotos em preto e branco. Ao mesmo tempo, o artista revela, do modo reservado típico da raiz mineira, que a opção pela foto em preto e branco remonta às memórias da infância: às fotos de pais e tios tiradas de garotos brincando com suas bolas e camisas da seleção brasileira, em quintais da meninice.

Faz bem Aurélio ao reunir a matriz técnica-amorosa aos objetos e eventos do hoje, tão extenuantes à alma adulta. Fica plasmada a aura do artista nessas páginas, afinal, o mineiro pode sair de Minas, mas as Gerais nunca sairão do mineiro.

Apreciem com afeto esse tesouro, marca de um período inigualável. 

 

(Texto da Maria Ângela Marques)

 

Tiragem limitada 30 cópias

 

28 páginas

 

15 cm x 20 cm

 

Preto e Branco

 

Primeira impressão

Sertão da Vossoroca - Aurélio Peluso, 2020

REF: APL
R$ 60,00Preço

    © 2020

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